CONVOCATÓRIA PARA A REUNIÃO ORDINÁRIA DE 16 DE AGOSTO DE 2014: neste sábado, mergulharemos pela quarta vez consecutiva numa obra-prima dreyeriana, a fim de constatar, antes da leitura do sétimo capítulo de nosso livro-base deleuzeano, em que consistem as tais “qualidades, potências e espaços quaisquer” da imagem-afecção. Antecipando o que leremos no referido capítulo, inclusive, depararemo-nos mais uma vez com o que o filósofo, a propósito da filmografia de Carl Theodor Dreyer (1889-1968), descreve como montagem afetiva, marcada pelas “relações entre cortantes e fluentes, que vão transformar todos os planos em casos particulares de primeiros planos e inscrevê-los ou conjugá-los sobre a planura de um único plano-seqüência, por direito ilimitado” (página 130 da versão disponibilizada ciberneticamente de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”).
A obra-prima cinematográfica que veremos neste sábado é o deslumbrante GERTRUD (1964), derradeiro filme do gênio dinamarquês, sintetizado diacronicamente pelo pesquisador Jean Tulard da seguinte maneira: “Um fracasso. Esse drama mundano parece ultrapassado. Só se encontrará a sua importância depois da morte de Dreyer. Uma morte solitária e digna, à imagem de uma obra que está entre as maiores e mais puras do cinema” (“Dicionário de Cinema – Os Diretores” – página 200).
Tal penosa descrição do insucesso comercial do filme é deveras elucidativo acerca de seu pungente impacto, de sua maestria, de sua capacidade inequívoca de nos inebriar. Adianto, ousadamente, que a relatoria posterior à reunião ordinária perigue ser publicada com relativo atraso, tamanho o impacto certeiro que o filme terá sobre a pessoa deWesley Pereira de Castro, relator oficial do grupo. Victor Cardozo, Daniela da Silva e a anfitriã da reunião, Iara Chagas também serão – cm certeza – emocionalmente destroçados pelo filme, de modo que é providencial que esta convocatória seja publicada: para que, depois, não se reclame que os cecinéfilos não foram advertidos acerca do quão poderoso e beatífico é esta peça suprema de arte em estado bruto. Robson Viana há de concordar e, quando estiver de volta, Jadson Teles há de contribuir bastante com suas observações kierkegaardianas acerca do tema nodal do enredo do filme: as obras do amor, em todas as suas facetas.
Numa resenha publicada à época que o filme foi lançado, em meio ao turbilhão de opiniões contraditórias sobre a recepção da obra, o crítico Novais Teixeira firmou que “nas imagens de GERTRUD, fica o tronco nu, revestido ainda da casca de uma nobre espiritualidade, mas tronco sem braços nem ramagens, de folhas levadas nos ventos do tempo”. Ao final, sem saber que se trata do canto do cisne do artista, ele se/nos pergunta: “será o último outono da criação?”. As inúmeras respostas possíveis a esta provocação estética encontram-se no filme em si, e explodirão no debate insigne que ocorrerá tão logo possamos nos recuperar de tudo o que vermos, ouvirmos e sentirmos diante da tela.

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