segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 29

CONVOCATÓRIA PARA A REUNIÃO ORDINÁRIA DE 16 DE AGOSTO DE 2014: neste sábado, mergulharemos pela quarta vez consecutiva numa obra-prima dreyeriana, a fim de constatar, antes da leitura do sétimo capítulo de nosso livro-base deleuzeano, em que consistem as tais “qualidades, potências e espaços quaisquer” da imagem-afecção. Antecipando o que leremos no referido capítulo, inclusive, depararemo-nos mais uma vez com o que o filósofo, a propósito da filmografia de Carl Theodor Dreyer (1889-1968), descreve como montagem afetiva, marcada pelas “relações entre cortantes e fluentes, que vão transformar todos os planos em casos particulares de primeiros planos e inscrevê-los ou conjugá-los sobre a planura de um único plano-seqüência, por direito ilimitado” (página 130 da versão disponibilizada ciberneticamente de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”).
A obra-prima cinematográfica que veremos neste sábado é o deslumbrante GERTRUD (1964), derradeiro filme do gênio dinamarquês, sintetizado diacronicamente pelo pesquisador Jean Tulard da seguinte maneira: “Um fracasso. Esse drama mundano parece ultrapassado. Só se encontrará a sua importância depois da morte de Dreyer. Uma morte solitária e digna, à imagem de uma obra que está entre as maiores e mais puras do cinema” (“Dicionário de Cinema – Os Diretores” – página 200).
Tal penosa descrição do insucesso comercial do filme é deveras elucidativo acerca de seu pungente impacto, de sua maestria, de sua capacidade inequívoca de nos inebriar. Adianto, ousadamente, que a relatoria posterior à reunião ordinária perigue ser publicada com relativo atraso, tamanho o impacto certeiro que o filme terá sobre a pessoa deWesley Pereira de Castro, relator oficial do grupo. Victor CardozoDaniela da Silva e a anfitriã da reunião, Iara Chagas também serão – cm certeza – emocionalmente destroçados pelo filme, de modo que é providencial que esta convocatória seja publicada: para que, depois, não se reclame que os cecinéfilos não foram advertidos acerca do quão poderoso e beatífico é esta peça suprema de arte em estado bruto. Robson Viana há de concordar e, quando estiver de volta, Jadson Teles há de contribuir bastante com suas observações kierkegaardianas acerca do tema nodal do enredo do filme: as obras do amor, em todas as suas facetas.
Numa resenha publicada à época que o filme foi lançado, em meio ao turbilhão de opiniões contraditórias sobre a recepção da obra, o crítico Novais Teixeira firmou que “nas imagens de GERTRUD, fica o tronco nu, revestido ainda da casca de uma nobre espiritualidade, mas tronco sem braços nem ramagens, de folhas levadas nos ventos do tempo”. Ao final, sem saber que se trata do canto do cisne do artista, ele se/nos pergunta: “será o último outono da criação?”. As inúmeras respostas possíveis a esta provocação estética encontram-se no filme em si, e explodirão no debate insigne que ocorrerá tão logo possamos nos recuperar de tudo o que vermos, ouvirmos e sentirmos diante da tela.
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RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 16 DE AGOSTO DE 2014: “Uma palavra sobre os atores. Quem tenha visto os meus filmes – os bons – saberá que importância eu dou ao rosto do homem. É um território que jamais nos cansamos de explorar. Não há experiência mais nobre em um estúdio do que registrar a expressão de um rosto sensível à misteriosa força da inspiração. Vê-lo animado do interior, transformando-se em poesia”.
A afirmação acima consta de uma entrevista concedida por Carl Theodor Dreyer à 65ª edição da revista Cahiers du Cinéma, publicada em dezembro de 1956, oito anos antes do lançamento de GERTRUD (1964), mas neste depoimento está a gênese da radicalização cênica que ele levaria a cabo nesta obra-prima, protagonizada por uma Nina Pens Rode em estado de graça. Ao longo do filme, ela praticamente explora um mesmo desígnio anímico, algo parecido com uma frustração em relação à inalcançabilidade (ou reconhecimento) do amor. Manoela Veloso Passos ficou deslumbrada com o desempenho da atriz – e não apenas: ao longo do debate sobre o filme, até mesmo esboço de julgamentos sobre os atos dos personagens foram mencionados, mas, ao final, todos os cecinéfilos presentes estavam arrebatados com a sublimidade da obra.
Por um lado, Caio Amado insistiu que este filme tem muito a ver com o conceito de “quinta dimensão cinematográfica” utilizado pelo cineasta, que diz respeito à tentativa de “mostrar que existe um mundo além do naturalismo, o mundo da imaginação”. Segundo o gênio dinamarquês, este mundo deve ser apresentado “sem que o diretor perca seu controle sobre o mundo da realidade. Sua realidade remodelada deve sempre permanecer como algo que o público deva reconhecer e no qual possa acreditar. Importa que as primeiras etapas rumo à abstração sejam cumpridas com tato e discrição”. Por outro, o mesmo Caio concordou com Wesley Pereira de Castro que, não obstante a religiosidade parecer secundária no roteiro do derradeiro filme do cineasta, o modo como o amor é defendido e buscado tem tudo a ver com a esfera teológica, algo que Jadson Telescom certeza pesquisou em seus estudos kierkegaardianos. O amor que Gertrud sente e/ou anseia por sentir é justamente uma metonímia do amor teológico, a ponto de Caio compará-la a uma representação feminina do Deus do Antigo Testamento, em sua concepção ciumenta e exclusivista da devoção amorosa. Num texto de Philip Kemp para o guia “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, a personagem é descrita como sendo “uma idealista erótica, uma mulher que só aceita o amor em seus próprios termos sinceros e exigentes”, desencadeando um epílogo celibatário em que, em sua velhice, a protagonista relembra o seu “evangelho do amor”, escrito aos 16 anos de idade, em que o amor é sobressalente à beleza, à juventude e à vida que se esvaem. Quem discorda de Gertrud neste ponto?



No plano técnico, sempre delicado de se analisar, tamanha a pujança afetiva da obra como um todo, GERTRUD se destaca, conforme analisa Gilles Deleuze acerca da filmografia dreyeriana, pela “planura ideal da imagem, que vai permitir a assimilação do plano médio ou geral a um primeiro plano, à equivalência de um espaço ou de um fundo branco com o primeiro plano”. É isso o que o filósofo sintetiza ao final do primeiro segmento do sétimo capítulo do livro-base, “A imagem-afecção: qualidades, potências, espaços quaisquer”, que leremos conjuntamente no sábado seguinte, no apartamento do mentor Caio Amado, às 14h30’do dia 23 de agosto de 2014. Além do próprio Carl Theodor Dreyer, no referido segmento são citadas obras de Ingmar Bergman e o já visto A CAIXA DE PANDORA (1929, de G. W.Pabst). Ao final da leitura, decidiremos que filmes serão vistos coletivamente pelos cecinéfilos nas reuniões vindouras, lembrando que, no segundo segmento do capítulo sétimo, o autor destaca os estilos de Robert Bresson e Joris Ivens. Temos muito a mergulhar na asfixiante imagem-afecção ainda. O que me leva a direcionar um pedido de desculpas pelo caráter um tanto vago desta relatoria, mas... Manter a sobriedade intelectual imediatamente após o jorro de beatitude que é GERTRUD é tarefa hercúlea, facilmente executável para quem não é afligido pelos efeitos colaterais dos atos amorosos... Não é o caso do relator responsável por estas linhas! 

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