segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 20

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 31 DE MAIO DE 2014: “A imagem-afecção é o primeiro plano, e o primeiro plano é o rosto...”
Assim Gilles Deleuze inicia, mui sinteticamente, o sexto capítulo de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”, em que recapitula diversas concepções anteriormente aventadas, como as distinções elementares entre a montagem orgânica norte-americana (D. W. Griffith à frente) e a montagem dialética soviética (Sergei Eisenstein) e as características básicas da montagem (e/ou fotografia) intensiva expressionista. Nesse sentido, ele estabelece uma distinção entre as propriedades do ‘wonder’ (rosto que se fixa num objeto ou pensa em algo, sendo pautado pela admiração ou pelo espanto) e do desejo (que prova ou ressente algo), que, ao final, reaparece numa tabela minuciosa, em que o primeiro tipo é associado ao nervo sensível, ao contorno rostificante (apreensão pictórica do rosto enquanto contorno) e à “expressão de uma qualidade comum a várias coisas diferentes”, enquanto o segundo vincula-se à tendência motora, aos traços de rosticidade (operação pictórica do rosto a partir de traços dispersos tomados na massa e/ou de linhas fragmentárias) e à “expressão de uma potência que passa de uma qualidade a outra”.
Apesar de insistir primordialmente na oposição griffithiana/eisensteiniana, o primeiro segmento deste capítulo define extensivamente o rosto como sendo uma “placa nervosa porta-órgãos que sacrificou o essencial de sua mobilidade global, e que recolhe ou exprime ao ar livre todo tipo de pequenos movimentos locais, que o resto do corpo mantém comumente soterrados”, que possui dois pólos demarcadores: a superfície refletora e os micro-movimentos intensivos, que desembocam, respectivamente, no ‘wonder’ e no desejo (amor-ódio).
À medida que o texto avança, o autor enumera outros cineastas que se utilizam recorrentemente destas propriedades, destacando particularmente G. W. Pabst e Josef Von Sternberg, sendo este último analisado mais cuidadosamente, por conta de sua classificação “antiexpressionista”. Nas semanas vindouras, portanto, veremos filmes destes cineastas, antes de adentrarmos no terceiro segmento do capítulo, que exige um arcabouço filosófico mais detido. No sábado que vem, dia 7 de junho de 2014, veremos o insigne A CAIXA DE PANDORA (1929), obra-prima do primeiro dos cineastas mencionados.
Após a sessão ordinária, que consistiu de uma leitura comentada dos dois primeiros maravilhosos segmentos deste capítulo, os cecinéfilos que ficaram para a sessão noturna conferiram EM NOME DE DEUS (2012), filme mais recente do genial cineasta filipino Brillante Mendoza, que, apesar de servir-se do rosto propenso ao ‘wonder’ de Isabelle Huppert (vide fotograma), desencadeia para outros tipos de imagem-movimento, decepcionando sobremaneira os seus espectadores (por outros motivos, claro). Mas foi uma sessão que valeu a pena – além de a reunião ter sido maravilhosa! Até a semana que vem...

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