RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 14 DE JUNHO DE 2014: “Tudo se passa entre a luz e o branco. A genialidade de [Josef Von] Sternberg é ter realizado a esplêndida fórmula de [Johann Wolfgang von] Goethe: ‘entre a transparência e a opacidade branca, existe um número infinito de graus de turvação. (...) Poderíamos chamar de branco o brilho fortuitamente opaco do transparente puro’. Pois o branco, para Sternberg, é antes de tudo o que circunscreve um espaço correspondente ao luminoso. E, neste espaço, inscreve-se um primeiro plano-rosto que reflete a luz. Sternberg parte, portanto, do rosto reflexivo ou qualitativo”.
Com esta introdução entusiasmada ao que ele descreve como sendo o “anti-expressionismo” sternberguiano, Gilles Deleuze, no segundo segmento do capítulo “A imagem-afecção: rosto e primeiro plano”, descreve em minúcias a deslumbrante seqüência de A IMPERATRIZ GALANTE (1934) que é mostrada no fotograma. Nesta, o diretor – em companhia de seu diretor de fotografia, Bert Glennon – serve-se de seu alegado “grande conhecimento prático dos linhos, tules, musselines e rendas”, para, dele, extrair “todos os recursos de um branco sobre branco no interior o rosto reflete a luz”. Quando lemos esta descrição, antes de termos visto o filme, já ficamos deslumbrados, mas a sessão da obra-prima em pauta foi ainda mais elucidativa: incrível o quanto este filme é exuberante, barroco, excessivo, genial!
Os cecinéfilos presentes à sessão, além de sorrirem bastante graças às tiradas espirituosas do filme – que se utiliza de inúmeros estratagemas da arte muda, principalmente os vastos intertítulos – quedaram inebriados frente ao que o pesquisador Claude Beylie destacou como sendo o paroxismo do imaginário sternberguiano. Segundo ele, “o mais ínfimo elemento do cenário ou dos acessórios, cujo acabamento o próprio diretor efetuou, a repartição das zonas de sombra e de luz, o modelado dos rostos, o planejamento dos tecidos, tudo se integra a uma arquitetura graciosa, a uma trama sem defeito”. De fato! Porém, ao término da sessão, Wesley Pereira de Castro questionou se este filme, ao contrário do que o filósofo indica, não seria justamente expressionista, visto que abundam os contrastes luminosos e as emulações fantasmagóricas na decoração dos ambientes. O próprio Gilles Deleuze responde, mencionando o que ele definiu como abstrações líricas tendentes à atmosfera de aquário: “os filés e véus de Sternberg distinguem-se, portanto, profundamente dos véus e filés expressionistas, e seus ‘flous’, do claro-escuro destes últimos”. Precisamos voltar a conversar sobre isto!
Durante o debate ao final da sessão, foram evocadas as mais diversas comparações com o filme, desde as supostas influências do mesmo na realização de IVAN, O TERRÍVEL – PARTE II (1945, de Sergei M. Eisenstein) até reminiscências aproveitadas em MARIA ANTONIETA (2006, de Sofia Coppola), na excelente telessérie “Game of Thrones” (2011-2014) ou até mesmo nos quadrinhos pós-modernos de Maurício de Souza nas edições de “Chico Bento Moço”. Elogios apaixonados não foram poupados ao filme, protagonizado por uma Marlene Dietrich em estado de graça, que surpreendeu aos presentes por causa de sua interpretação nuançada, antes de sua personagem se tornar a diva pela qual ela é lembrada com destaque na História do Cinema...
No filme, inclusive, abundam ‘close-ups’ de rostos, que, segundo a perspectiva deleuzeana, evidenciam extensivamente a imagem-afecção propriamente dita: as cenas do casamento e do banquete de noivado arrebataram Victor Cardozo, Brenda Helena, Aelton Leonardo Barbosa, Manoela Veloso Passos, Jadson Teles e Daniela da Silva, que se depararam com que os críticos Henri Langlois e Jean Mitry resumiram como “faustos flamejantes”, “mundo de ícones extáticos” e “absoluto das formas”. Para a semana que vem, compararemos o estilo do autor nesta obra-prima com o que ele faz em TENSÃO EM SHANGAI (1941), obra da última fase de sua carreira, protagonizado pela bela Gene Tierney e por aquele que o mentor Caio Amado considera um dos piores atores de todos os tempos: Victor Mature. Vale a pena conferir!

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