RELATORIA DA REUNIÃO DE 25 DE JANEIRO
DE 2014: "O expressionismo não pára de pintar o mundo de vermelho sobre
vermelho, um remetendo à terrível vida não-orgânica das coisas, o outro à
sublime vida não-psicológica do espírito. O expressionismo chega ao grito, o
grito de Margarida, o grito de Lulu, a marcar tanto o horror da vida
não-orgânica quanto a abertura talvez ilusória de um universo espiritual.
[Sergei] Eisenstein também chegava ao grito, mas à maneira de um dialético, isto é,
como o salto qualitativo que fazia o todo evoluir. Agora, ao contrário, o todo
está na altura e confunde-se com o ápice ideal de uma pirâmide que, subindo,
está sempre rechaçando a sua base. O todo tornou-se a intensificação propriamente
infinita que se liberou de todos os graus, que passou pelo fogo, mas apenas
para romper suas amarras sensíveis com o material, o orgânico e o humano, para
se desvincular de todos os estados do passado e descobrir assim a Forma
espiritual absoluta do futuro". (Gilles Deleuze -CINEMA 1: A
IMAGEM-MOVIMENTO)
Assim chegamos ao fim do segmento 3 do
terceiro capítulo do referido livro-base: se, no trecho sobre o impressionismo
francês, a exigüidade de filmes deste movimento vistos pelo grupo engendrou uma
dificuldade adicional na apreensão das potentes metáforas filosófico-poéticas
do autor, neste trecho sobre o Expressionismo alemão foram requeridas
considerações sobre a teoria goetheniana das cores, a fim de se compreender as
transposições cromáticas que o autor enxergava nos maravilhosos filmes em
preto-e-branco que discute.
O cineasta mais citado no
capítulo foi F. W. Murnau (1888-1931), visto que até mesmo os filmes de sua
fase estadunidense [AURORA (1927, mostrado em foto) e TABU (1931, co-dirigido
por Robert Flaherty)] conservam as características expressivas da montagem
intensivo-espiritual alemã, no que tange à irização, à reverberação, à
cintilação e à incandescência - em forma e conteúdo - de uma "vida
não-orgânica das coisas [que] culmina no fogo" e/ou na queda, sendo o
Expressionismo a "concepção do todo de um Universo espiritual a gerar suas
próprias formas abstratas, seus seres de luz, seus 'raccords', que parecem
falsos ao olho do sensível". Neste sentido, nos filmes expressionistas, o
presente variável se converte em grau intensivo, sendo o todo orgânico a
totalidade intensiva do sublime dinâmico.
Na reunião seguinte,
avançaremos pelo quarto capítulo do livro, "A imagem-movimento e suas três
variedades: segundo comentário de Bergson", que apresenta os conceitos em
que será subdivida a imagem-movimento, antes de o autor redarguir que a
montagem é "a imagem indireta do tempo"
Link para o AURORA :

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