segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 23


RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 21 DE JUNHO DE 2014: “Diferentemente de [King] Vidor – e [Frank] Borzage – [Josef Von] Sternberg não produziu em Hollywood nenhum filme falado de valor. Para lá, levara da Alemanha, após O ANJO AZUL (1930), Marlene Dietrich e fez dessa jovem, bem de carne e osso, uma misteriosa criatura de faces cavadas, uma nova ‘vamp’, um mito. Tal como em FRANKENSTEIN (1931, de James Whale), o monstro aniquilou o seu criador. De MARROCOS (1930) a O EXPRESSO DE XANGAI (1932), de DESONRADA (1931) a A IMPERATRIZ GALANTE (1934), Sternberg afundou nas plumas e rendas de uma Marlene divinizada. [...] Seu canto do cisne, TENSÃO EM SHANGAI (1941), horrível melodrama, é a caricatura trágica de si próprio por um criador fora da moda, devorado pelo estetismo, os sistemas e os tiques” (“História do Cinema Mundial – Volume I: Das Origens a Nossos Dias” – Georges Sadoul – página 243). 


Este julgamento severíssimo por parte do primeiro grande historiador do cinema mundial demonstra o quanto o também historiador Jean Tulard tem razão quando, em seu obrigatório “Dicionário de Cinema – os Diretores”, alega que o ciclo colaborativo entre este cineasta e a diva Marlene Dietrich, que rendeu sete filmes, precisa ser revisto. Afirma o pesquisador: “essas obras quase oníricas, de uma decadência refinada, de imagens esplendidas, nem sempre foram bem recebidas, diga-se de passagem. É nos dias de hoje que se está descobrindo a sulfúrea beleza e o pessimismo profético” (p. 604). Ao contrário de Georges Sadoul, portanto, Jean Tulard considera os filmes desta época falada da carreira hollywoodiana de Josef Von Sternberg obras-primas, o que é confirmado pelo também pesquisador Claude Beylie, no livro “As Obras-Primas do Cinema”.

Todo este preâmbulo bibliográfico divergente é uma maneira de introduzir o profícuo debate que ocorreu ao final da sessão de MARROCOS, filme que não é efetivamente citado no sexto capítulo do livro-base deleuzeano, mas que será elogiado no terceiro segmento do sétimo capítulo, “A imagem-afecção: qualidades, potências, espaços quaisquer”, que leremos em algumas semanas. Nas páginas 135-136 da versão em .pdf do livro-base que possuímos, o filósofo acrescenta: “em [Josef Von] Sternberg, a escolha que a heroína deve fazer entre uma andrógina branca ou cintilante, gelada, e uma mulher apaixonada ou mesmo conjugal, pode aparecer explicitamente apenas em certas ocasiões (MARROCOS, A VÊNUS LOIRA, O EXPRESSO DE XANGAI), mas não deixa de estar presente em toda a obra: A IMPERATRIZ GALANTE comporta um único primeiro plano dotado de sombra, e é precisamente aquela em que a princesa renuncia ao amor e opta pela fria conquista do poder”. Por este motivo, o mentor Caio Amado insistiu em reassistir a este filme ao nosso lado: segundo ele, “MARROCOS resolve mais explicitamente questões que A IMPERATRIZ GALANTE não dá conta”!

Ao término da sessão de MARROCOS, Caio defendeu o filme tão enfaticamente que chegou a insinuar que este seria o melhor filme sternberguiano. Wesley Pereira de Castro e Jadson Teles discordaram visceralmente, no sentido de que alegaram que o roteiro do filme é repleto de inconstâncias e/ou indefinições, o que torna algumas decisões da protagonista precipitada. Victor Cardozo e Manoela Veloso Passos, por outro lado, apoiaram o vigor da protagonista, no sentido de que ela estaria a exercer a prerrogativa suprema da escolha, o que, por sua vez, ao ser equiparada com um “destino” feminino repisado em inúmeras produções hollywoodianas do período, incomodaram sobremaneira Wesley e Aelton Leonardo Barbosa. À medida que o debate avançava – e Caio e os demais cinéfilos ficavam mais e mais empolgados, visto que esta confluência de idéias amplia a experiência moral e estética concernente ao filme –, tornou-se ponto pacífico que, com todos os seus problemas estruturais, MARROCOS era um filme ideal para demonstrar os aspectos afetivos da imagem que tanto interessam a Gilles Deleuze, que, numa passagem posterior, indica que “a verdadeira escolha” está ao lado de quem opta pelo sacrifício de si, “sob uma única condição: não se justificar, não ter de se justificar, de prestar contas. O personagem da verdadeira escolha se encontrou no sacrifício, ou se reencontrou para além do sacrifício, que é sempre recomeço” (p. 138). 

A insistência nesta defesa da escolha como ato de fé, paixão e afeto regressará ao longo dos capítulos seis e sete do livro-base, de modo que precisaremos de um arsenal kierkegaardiano para compreender as assertivas posteriores. Jadson providenciará o mesmo, enquanto Caio insistiu em mais uma modificação de programação: pediu que suspendêssemos a sessão coletiva oficial do irregular TENSÃO EM SHANGAI e, em lugar disso, víssemos conjuntamente O EXPRESSO DE XANGAI, no sábado seguinte, 28 de junho de 2014. Aproveito a deixa para sugerir uma idéia que creio que será rapidamente acatada pelo grupo: já que tanto este filme quanto o subseqüente A VÊNUS LOIRA abordam basicamente os mesmos problemas morais e apresentam o mesmo tipo de imagem-afecção – além de serem realizados no mesmo ano, 1932 – que tal convencermos Caio a vê-los no mesmo dia, já que ambos não são muito demorados? É a sugestão deste relator, que não apreciou adequadamente MARROCOS, mas entende que, em seus momentos grandiosos, ele atinge brilhantemente os aspectos filosóficos e cinematográficos destacados por Gilles Deleuze.


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