RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 09 DE AGOSTO DE 2014: “Cada imagem de A PALAVRA (1955) é de uma perfeição formal que chega ao sublime, mas sabemos que [Carl Theodor] Dreyer é muito mais que um ‘plasticista’. O ritmo é muito lento, o desempenho dos atores é hierático, mas esse ritmo e esse desempenho são extraordinariamente controlados; nem um centímetro quadrado do filme escapou da vigilância de Dreyer, que certamente foi o diretor mais exigente depois da morte de [Sergei M.] Eisenstein, aquele cujos filmes acabados mais se pareciam com o que eram no cérebro daquele que os concebera”.
Assim a faceta crítica de Francois Truffaut se posiciona diante da obra-prima que foi vista coletivamente pelos cecinéfilos, num artigo publicado em 1969, alguns meses após a morte do extraordinário diretor dinamarquês que estamos estudando por conta de sua filiação à imagem-afecção. Segundo observação mui pessoal de Daniela da Silva, afecção nos filmes dreyerianos é algo que impregna cada detalhe, de maneira que, mais uma vez, aqueles que compareceram à sessão quedaram paralisados por vários instantes, antes que pudessem comentar qualquer coisa sobre a suma experiência cinematográfica com a qual haviam acabado de entrar em contato: (re)ver A PALAVRA é um verdadeiro ato litúrgico, o que se confirmou durante as análises do grupo, que pareciam párocos entusiasmados diante de um milagre divino.
Não obstante a sentida ausência de Jadson Teles, que nos possibilitaria valiosos acréscimos interpretativos de cunho kierkegaardiano, o debate foi rico em impressões: a anfitriã Iara Chagas resgatou experiências religiosas de sua adolescência como noviça e explicou em que sentido a filosofia consumida pelo protagonista justifica o tipo de atividade beatifica que abunda no filme; Victor Cardozo aproveitou a deixa e ressaltou os aspectos originalmente teatrais do filme (baseado numa peça de 1912, escrita por Kaj Munk), enquanto o mentor Caio Amado notou com perplexidade o quanto o filme é prenhe de movimentos circulares de câmera, o que faz com que toda a atmosfera do filme seja impregnada do conceito de ciclo vital. Conforme bem notou outro crítico, este filme é tão singular que, “com os recursos mais simples e sem qualquer tipo de efeito especial, consegue persuadir o espectador de que um milagre pode acontecer”.
De fato, ainda aproveitando as palavras de Geoff Andrew para o seu verbete em “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, nesta obra-prima, o seu genial diretor “deixa a cargo do espectador decidir se a ressurreição é uma questão de mera incapacidade científica de compreender o improvável ou da força da fé”. Por mais que, nesta perspectiva, o teor miraculoso (em todos os sentidos) do roteiro se sobreponha à sua configuração artística enquanto tal (o que fez com que Manoela Veloso Passos, por exemplo, elogiasse a ausência oportuna de créditos finais), vale a pena resgatar mais um elogio truffautiano, que, em sua insistência em cognominar Carl Theodor Dreyer como “o cineasta da brancura” (algo que advém de sua filiação bazaniana), aforam que, em A PALAVRA, “o branco volta a triunfar, um branco leitoso, um branco de cortinas ensolaradas, nunca visto antes nem depois”. Os cecinéfilos ficaram em êxtase!
Após a discussão sobre o filme, uma refeição deliciosa foi servida e os presentes aproveitaram a deixa religiosa para dialogarem acerca de suas experiências genitais, algo que também tinha a ver com A PALAVRA, já que um erotismo sutil abunda, conforme foi dito acerca dos gemidos de uma personagem durante o parto (afinal, mal-sucedido) ou no instante em que, ao ser consolado acerca da perda de sua esposa, cuja alma viveria para sempre, o seu marido então incrédulo rebate: “mas eu também amo o seu corpo!”.
Estivemos diante de uma obra insigne, portanto, o que se repetirá no sábado conseguinte, 16 de agosto de 2014, novamente na residência de Iara, quando veremos o derradeiro e primoroso GERTRUD (1964). Preparem os sentimentos, cecinéfilos, pois este filme nos dilacerará positivamente mais uma vez!
![RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 09 DE AGOSTO DE 2014: “Cada imagem de A PALAVRA (1955) é de uma perfeição formal que chega ao sublime, mas sabemos que [Carl Theodor] Dreyer é muito mais que um ‘plasticista’. O ritmo é muito lento, o desempenho dos atores é hierático, mas esse ritmo e esse desempenho são extraordinariamente controlados; nem um centímetro quadrado do filme escapou da vigilância de Dreyer, que certamente foi o diretor mais exigente depois da morte de [Sergei M.] Eisenstein, aquele cujos filmes acabados mais se pareciam com o que eram no cérebro daquele que os concebera”.
Assim a faceta crítica de Francois Truffaut se posiciona diante da obra-prima que foi vista coletivamente pelos cecinéfilos, num artigo publicado em 1969, alguns meses após a morte do extraordinário diretor dinamarquês que estamos estudando por conta de sua filiação à imagem-afecção. Segundo observação mui pessoal de Daniela da Silva, afecção nos filmes dreyerianos é algo que impregna cada detalhe, de maneira que, mais uma vez, aqueles que compareceram à sessão quedaram paralisados por vários instantes, antes que pudessem comentar qualquer coisa sobre a suma experiência cinematográfica com a qual haviam acabado de entrar em contato: (re)ver A PALAVRA é um verdadeiro ato litúrgico, o que se confirmou durante as análises do grupo, que pareciam párocos entusiasmados diante de um milagre divino.
Não obstante a sentida ausência de Jadson Teles, que nos possibilitaria valiosos acréscimos interpretativos de cunho kierkegaardiano, o debate foi rico em impressões: a anfitriã Iara Chagas resgatou experiências religiosas de sua adolescência como noviça e explicou em que sentido a filosofia consumida pelo protagonista justifica o tipo de atividade beatifica que abunda no filme; Victor Cardozo aproveitou a deixa e ressaltou os aspectos originalmente teatrais do filme (baseado numa peça de 1912, escrita por Kaj Munk), enquanto o mentor Caio Amado notou com perplexidade o quanto o filme é prenhe de movimentos circulares de câmera, o que faz com que toda a atmosfera do filme seja impregnada do conceito de ciclo vital. Conforme bem notou outro crítico, este filme é tão singular que, “com os recursos mais simples e sem qualquer tipo de efeito especial, consegue persuadir o espectador de que um milagre pode acontecer”.
De fato, ainda aproveitando as palavras de Geoff Andrew para o seu verbete em “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, nesta obra-prima, o seu genial diretor “deixa a cargo do espectador decidir se a ressurreição é uma questão de mera incapacidade científica de compreender o improvável ou da força da fé”. Por mais que, nesta perspectiva, o teor miraculoso (em todos os sentidos) do roteiro se sobreponha à sua configuração artística enquanto tal (o que fez com que Manoela Veloso Passos, por exemplo, elogiasse a ausência oportuna de créditos finais), vale a pena resgatar mais um elogio truffautiano, que, em sua insistência em cognominar Carl Theodor Dreyer como “o cineasta da brancura” (algo que advém de sua filiação bazaniana), aforam que, em A PALAVRA, “o branco volta a triunfar, um branco leitoso, um branco de cortinas ensolaradas, nunca visto antes nem depois”. Os cecinéfilos ficaram em êxtase!
Após a discussão sobre o filme, uma refeição deliciosa foi servida e os presentes aproveitaram a deixa religiosa para dialogarem acerca de suas experiências genitais, algo que também tinha a ver com A PALAVRA, já que um erotismo sutil abunda, conforme foi dito acerca dos gemidos de uma personagem durante o parto (afinal, mal-sucedido) ou no instante em que, ao ser consolado acerca da perda de sua esposa, cuja alma viveria para sempre, o seu marido então incrédulo rebate: “mas eu também amo o seu corpo!”.
Estivemos diante de uma obra insigne, portanto, o que se repetirá no sábado conseguinte, 16 de agosto de 2014, novamente na residência de Iara, quando veremos o derradeiro e primoroso GERTRUD (1964). Preparem os sentimentos, cecinéfilos, pois este filme nos dilacerará positivamente mais uma vez! (WPC>)](https://fbcdn-sphotos-g-a.akamaihd.net/hphotos-ak-xap1/v/t1.0-9/s480x480/10313412_10203727951071643_2445661130562647355_n.jpg?oh=a45b66a11f653d7466222b62d84b2383&oe=54CDBB9B&__gda__=1417949216_8c1456b96403f6cfc13aaea6cf8b0e0e)
Nenhum comentário:
Postar um comentário