segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 21

CONVOCATÓRIA PARA A REUNIÃO ORDINÁRIA DE 07 DE JUNHO DE 2014: “A fama de A CAIXA DE PANDORA [1929], obra-prima atemporal de G. W. Pabst, adaptada das ‘peças de Lulu’ de Frank Wedekind, se deve à sua criação de um personagem arquetípico a partir de Lulu (Louise Brooks), uma inocente sedutora cuja escancarada sexualidade acaba arruinando a vida de todos à sua volta” (Kim Newman, no artigo sobre a referida produção em “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”).
Esta espetacular exortação sinóptica já é mais que suficiente para despertar o interesse sobre este filme esplêndido, mas o filósofo Gilles Deleuze, no início do segundo segmento do sexto capítulo (“A Imagem-Afecção: rosto e primeiro plano”) do livro-base “Cinema 1: A Imagem-Movimento” acrescenta que a referida obra “mostra até que ponto se passa de um pólo ao outro [da imagem-percepção] numa seqüência relativamente curta”. Os pólos aos quais o autor se refere são o ‘wonder’ (admiração ou espanto) e o desejo (amor-ódio), e a seqüência curta que ele descreve corresponde justamente à derradeira seqüência do filme, escolhida como demonstração da referida transição entre pólos não por sua exclusividade, mas por seu paroxismo. Digo mais: não basta explicar, tem que conferir... O filme é absolutamente genial!
Difundido mundialmente como “uma pérola do erotismo cinematográfico”, A CAIXA DE PANDORA é um envelheceu magistralmente, permanecendo ainda hoje tão impactante quanto o foi à época de seu lançamento, quando, entre diversos outros elementos, chocou por causa de suas impressionantes insinuações de lesbianismo. É um filme imperdível! Ao final da sessão, compartilharemos as impressões e sensações que o filme nos causar, antes de prepararmo-nos para as imersões sternberguianas dos sábados seguintes.


RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 07 DE JUNHO DE 2014: “Se uma jovem de [D. W.] Griffith pensa no marido, só podemos sabê-lo porque vemos logo em seguida a imagem do marido – é preciso esperar, e o vínculo parece apenas associativo. De modo que talvez convenha inverter a ordem e começar por um primeiro plano de objeto, que nos informará sobre o pensamento iminente do rosto – em A CAIXA DE PANDORA [1929, de G. W. Pabst], o primeiro plano da faca nos prepara para o pensamento terrível de Jack, o estripador” [Gilles Deleuze – segmento 1 do sexto capítulo (“A Imagem-Afecção: rosto e primeiro plano”) de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”].
A sessão recordista de público deste sábado permitiu que os cecinéfilos pudessem constatar o quanto esta assertiva deleuzeana é efetiva para a identificação da imagem-afecção, bastante diversa da imagem-percepção, que viemos estudando até então. Se esta última é associada imageticamente ao plano médio e caracteriza-se por uma identificação mútua entre o estilo do cineasta e a perspectiva psicológica de seus protagonistas, a primeira tem como marca registrada o ‘close-up’ e dota as matérias (vivas ou inanimadas) de ‘rosticidade’. Ou seja, tal qual podemos depreender do exemplo citado por Gilles Deleuze, que ocorre na seqüência derradeira do genial filme pabstiano que vimos em conjunto, uma faca assume contornos “humanos” ao coadunar-se ao conjunto de elementos que conduzem a um assassinato, instante de paroxismo em que a morte demonstra-se como qualidade comum à “máscara de assassino, à disponibilidade da vítima e ao apelo irresistível do instrumento”, já que temos a impressão que a faca pisca o olho para o atormentado homicida...
Não obstante a pujança da descrição desta ótima seqüência, podemos verificar este efeito de rostificação em mais de um momento do filme, protagonizado por uma Louise Brooks em estado de graça. Segundo o crítico Claude Beylie, inclusive, foi graças a este filme que o cineasta Georg Wilhelm Pabst “se inscreve na corrente do realismo ‘libertário’, depois de ter se dedicado por algum tempo ais labirintos expressionistas”. Durante o debate sobre o filme, Wesley Pereira de Castro insistiu que o filme apresenta muitas características expressionistas, não apenas por causa de seus rigorosos contrastes entre claro e escuro (tanto formal quanto conteudisticamente), mas principalmente pela recorrência de antíteses nos enquadramentos orquestrados pelo fotógrafo Günter Krampf.Jadson Teles foi além e percebeu similaridades entre o mito de Pandora, citado numa seqüência de tribunal, e a trama religiosa basilar de Eva, que instaura o pecado no mundo ao convencer seu marido Adão a comer “a fruta do bem e do mal”. Tanto quanto estas heroínas injustiçadas pelas conseqüências de seus atos, Lulu é quase inocente em sua impulsividade desejosa desencadeadora de tantas tragédias morais. Segundo o citado Claude Beylie, no enredo do filme, “a sociedade burguesa é duramente criticada e a reivindicação da liberdade sexual afirmada com vigor”. Ninguém discordará disso!
Se, ainda durante o debate, Wesley mencionou uma famosa fábula sobre um escorpião e uma rã que tem como moral da estória o pedido de desculpas do primeiro [“não pude evitar: é a minha natureza!”] quando assassina a segunda durante a feitura de um favor útil a ambos, Victor Cardozo estabeleceu relações que ele auto-definiu como “esquizofrênicas” entre o que vira no filme e alguns filmes menos conhecidos de Alfred Hitchcock, Michael Mann e, principalmente, James Gray, enquantoManoela Veloso Passos destacou afortunadamente o sobejo de ‘faux raccords’ no filme. Foi uma sessão mágica, que satisfez as expectativas da vasta platéia – aliás, superou algumas: graças a uma indagação supostamente não-fálica do mentor Caio Amado, jamais enxergaremos uma banheira da mesma maneira!
Nas duas semanas seguintes, veremos dois filmes de Josef von Sternberg citados no texto-base deleuzeano, estando o aguardadíssimo “A Imperatriz Galante” (1934), protagonizado pela exuberante Marlene Dietrich, musa do cineasta, programado para a semana que vem. Mais uma sessão imperdível se insinua: tomara que gozemos do mesmo público numeroso (risos). 

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