CONVOCATÓRIA PARA A REUNIÃO ORDINÁRIA DE 29 DE JUNHO DE 2014 (EXCEPCIONALMENTE, UM DOMINGO): conforme foi deliberado pelo grupo, a reunião desta semana será num dia atípico, visto que a realização do jogo de futebol envolvendo a seleção Brasileira num sábado impedia a locomoção de alguns membros. Seja como for, os participantes disseram que poderiam aparecer num domingo, o que o mentor Caio Amado também concordou, visto ser esta solução muito mais prática que o adiamento de nossos estudos coletivos. Portanto, tal qual estivera programado, neste domingo daremos prosseguimento à audiência de filmes que demonstram a grandiosidade da parceria entre o cineasta Josef Von Sternberg e a atriz Marlene Dietrich.
No afã por confirmar em que medida estes filmes filiam-se à concepção de imagem-afecção e tendo consciência de que Caio os exorta entusiasmadamente por detectar nos mesmos a plena realização do conflito ético (a escolha) essencial para o entendimento da concepção deleuzeana do afeto, veremos duas produções realizadas em 1932: O EXPRESSO DE XANGAI, descrito pelo guia “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” como um sustentáculo perfeito do equilíbrio entre intensidade, estilização, exuberância e arte, elementos que caracterizam o ciclo colaborativo entre diretor e estrela; e A VÊNUS LOIRA, que contém uma das seqüências mais antológicas do cinema mundial, em que a protagonista surge vestida de gorila num espetáculo musical erótico (vide fotograma).
O local para a reunião será o mesmo das últimas semanas, a residência deJadson Teles, e o horário de chegada ficou demarcado para as 13h, mas Caio prefere que comecemos habitualmente às 14h30’. Particularmente, seria ideal que chegássemos cedo, a fim de evitarmos as típicas turbulências dominicais e aproveitarmos para organizar procedimentos alimentícios no intuito de, caso haja concordância e/ou disponibilidade do grupo, vermos o derradeiro filme do ciclo Sternberg-Dietrich, A MULHER SATÂNICA (1935), após a sessão dupla oficial. Mas tudo isso será novamente decidido ‘in loco’
RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 29 DE JUNHO DE 2014: “É possível que [Josef Von] Sternberg obtenha efeitos análogos aos do expressionismo, como em O ANJO AZUL (1930); mas é por simulação, com meios totalmente diversos, na medida em que a refração está muito mais próxima de um impressionismo, onde a sombra é sempre uma conseqüência. Não se trata apenas de uma paródia do expressionismo, mas sim, com mais freqüência, de uma rivalidade, isto é, de uma produção dos mesmos efeitos, através de princípios opostos”.
Esta explicação, conferida por Gilles Deleuze no derradeiro parágrafo [entre as páginas 115 e 116 de nossa edição em .pdf] do segundo segmento do capítulo 6, “A imagem-afecção: rosto e primeiro plano”, do livro-base “Cinema 1: A Imagem-Movimento”, ajuda Wesley Pereira de Castro e Jadson Teles a ficarem menos angustiados no que tange à taxonomia dos procedimentos sombreados deste gênio austríaco, de quem vimos, nesta reunião ordinária ocorrido num dia inabitual (domingo), mais duas obras distintas de seu círculo colaborativo com a diva Marlene Dietrich: o extraordinário O EXPRESSO DE XANGAI (1932 – fotograma à esquerda) e o formulaico MULHER SATÂNICA (1935 – fotograma à direita), último filme que eles fizeram juntos e que, num comentário breve de sua autobiografia, o diretor relata que, simbolicamente, foi quando ele” parou de fazer cinema”. Alguns exegetas atestam que os filmes produzidos após este ano não são de todo desprezíveis. Georges Sadoul, por sua vez, rejeita até mesmo os clássicos hollywoodianos anteriores. No devido momento, nós, cecinéfilos, teremos a oportunidade de chafurdar nesta oposição crítica. Por ora, outras questões saltam aos olhos, ouvidos e afecções sensório-emotivas mais gerais.
O EXPRESSO DE XANGAI obteve uma recepção deslumbrada generalizada, em sua demonstração de que “o tema do filme é o rosto de Dietrich, que serve de palco para uma série de variações: ele aparece sob véus e sombras, envolvido em fumaça, descansando sobre
um ninho de penas, emoldurado em arranjos intricados de preto no branco” (texto de Philip Kent, na página 99 da edição 2008 de “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”). Robson Viana, inclusive, externou uma interessantíssima interpretação dos recorrentes motivos fumegantes diante do rosto da protagonista, em momentos determinantes da trama, que foi acatada com fascínio cauteloso pelos presentes à sessão. MULHER SATÂNICA, por sua vez, não dispôs da mesma consagração: por mais que Daniela da Silvatenha se entusiasmado bastante durante a sessão e que Victor Cardozotenha exclamado que o filme é demasiado sintético acerca das obsessões formais e conteudísticas do diretor, Wesley, Manoela Veloso Passos e Yuri Ferreira ficaram decepcionados com o que viram. Nina Sampaio fez alguns acréscimos hermenêuticos repletos de intuição feminina, os quais satisfizeram a empolgação do mentor Caio Amado, que vira o filme pela primeira vez e o achou proveitoso, mas a discussão acerca do sobejo contraproducente de estereotipia na concepção da protagonista continuou em voga após o encerramento oficial da reunião...
Por conta do vasto levantamento de questões relacionadas ao estilo pungente de Josef Von Sternberg, em que a escolha e a fé surgem como temas recorrentes, Caio Amado sugeriu que a próxima reunião fosse um debate geral acerca de tudo o que experimentamos diante dos quatro últimos filmes que vimos [além dos dois susomencionados, MARROCOS (1930) e A IMPERATRIZ GALANTE (1934)], sendo sugerido para tal um distanciamento do texto-base deleuzeano e a apreensão de outros documentos sobre a profícua relação Sternberg-Dietrich, incluindo excertos do livro de memórias do cineasta, “Palhaçadas numa Lavanderia Chinesa”, cujo décimo segundo capítulo foi adaptado como artigo da edição nº 63 da conceituada revista Cahiers Du Cinéma, sob o título “Plus de lumière!” [“Mais luz!”], que será lido e traduzido por Caio na reunião vindoura. Quem quiser acrescentar novas informações ao debate, será mais que bem-vindo, será exortado com entusiasmo.



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