RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 29 DE MARÇO DE 2014: “[Jean-Luc] Godard sempre teve uma relação de amor e ódio com Hollywood. Para ele, os filmes americanos são, ao mesmo tempo, os mais belos e honestos e também os mais feios e crassos. (...) O próprio fato de a película ter sido filmada em Techniscope pelo grande Raoul Cotard pode ser considerado um comentário sobre a grandiosidade manufaturada de tantos filmes de prestígio de Hollywood nos anos 50 e 60. Se você conhece o cinema de Hollywood dessa época, assistir a O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS pode ser extremamente compensador, mesmo se um tanto intrigante, pois a sátira em Godard nunca é tão óbvia quanto se pode esperar” (Ethan DeSeife, na página 446 do guia essencial “1.001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, edição de 2008).
Tudo em O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS (1965, de Jean-Luc Godard) é perfeito e qualquer coisa que se possa dizer sobre ele ainda é pouco, mas os cecinéfilos fizeram o possível na reunião ordinária do último sábado, quando alguns dos presentes reviam o filme, embasbacados, pela enésima vez enquanto outros, igualmente embasbacados, o descobriam na primeira de muitas (re)visões. Entretanto, o trecho relativamente enciclopédico da resenha acima é deveras pertinente acerca do aspecto do filme que foi mais comentado no debate após a sessão, quando Wesley Perreira de Castro externou o seu espanto ao constatar o quanto este filme é acessivelmente tramático em relação a outras obras-primas godardianas.
O mentor Caio Amado destacou o quanto este filme é belo, donde se faz notar, mais uma vez, a fotografia deslumbrante de Raoul Cotard, que joga excessivamente com as cores da bandeira francesa. O fotograma esverdeado que anexo a esta publicação merece ressalva por apresentar-nos, enquanto figurante, a um dos cineastas favoritos do diretor, Samuel Fuller, que publiciza a sua célebre definição do que é cinema: “um filme é como um campo de batalha: possui amor, ódio, ação, morte... Numa palavra: emoção!”. Tudo o que o protagonista precisava para se lançar com a personagem de Anna-Karina (metonímia da imagem-ação no filme, segundo Caio) num chiste com os principais gêneros hollywoodianos: filmes de gângster, comédia burlesca, musical, romance, etc....
A quantidade de referências cinematográficas, pictóricas, arquitetônicas, musicais e literárias no filme é tão exorbitante que o mais recomendável seria revê-lo com um caderninho de anotações nas mãos, o que trouxe à tona uma discussão antiga sobre a assimilação do estilo godardiano pela publicidade hodierna, o que não se completa por causa do modo como o diretor costura os seus roteiros, fazendo o espectador lançar mão de um vasto cabedal artístico para decodificar os signos subjacentes à trama.
Oficialmente, a intenção de Caio ao escolher este filme era compará-lo às produções de Michelangelo Antonioni e Bernardo Bertolucci anteriormente vistas e verificar até que ponto ele se associa ao conceito de “cinema de poesia” (segundo Pier Paolo Pasolini) e a noção de “imagem-percepção” por Gilles Deleuze. Na semana que vem, veremos A COLECIONADORA (1967, de Éric Rohmer), a fim de avançar no cotejo. Convite difundido, portanto!

Nenhum comentário:
Postar um comentário