segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIA 17

RELATORIA DA PARTICIPAÇÃO DO CECINE/UFS NA MOSTRA JOHN FORD PROMOVIDA PELO SESC, EM 8, 9 E 10 DE MAIO DE 2014: “Nós não temos uma alma, mas apenas uma pequena parte de uma alma maior, que pertence a todos!”. Eis o que proclama o protagonista de VINHAS DA IRA (1940), num dos momentos que antecede o soberbo desfecho progressivo, num dos inúmeros píncaros emocionais da filmografia de John Ford. Mas, antes de destacarmos a lacrimosidade coletiva que este filme implantou sobre os cecinéflios presentes à sessão, façamos um breve resumo do que foi visto desde o primeiro dia da Mostra, resumo este que deve ser complementado na seção destinada aos comentários, pelos demais espectadores cadastrados neste grupo.
Na quinta-feira, dia 8 de maio, o mentor Caio Amado comentou sobre O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962), um de seus filmes favoritos. Como esta era a sessão de abertura da Mostra, houve uma cobertura espalhafatosa da imprensa, chegando ao cúmulo de, conforme noticiado por Robson Viana, uma repórter interromper a imersão dos espectadores para perguntar-lhes o que eles estavam achando do filme – enquanto o mesmo ainda estava sendo exibido, pasmem!
Patacoadas da imprensa à parte, a palestra de Caio foi, como de hábito, bastante ilustrativa e historicizada, traçando um rico panorama dos aspectos que influenciaram a filmografia fordiana e, conforme notou Henrique, a partir da realização de uma pergunta, compreendendo como este diretor realçava e complexificava os estereótipos e elementos tradicionais do gênero faroeste, ao mesmo tempo em que os desmistificava. Foi um debate bastante rico, apesar de sua brevidade, que ajudou deveras a perceber a importância basilar de alguns dos temas e esboços personalísticos que se destacavam em MÉDICO E AMANTE (1931), filme exibido às 17h deste mesmo dia.
Na sexta-feira, dia 9 de maio, foi a vez de o comunicólogo Cristiano Leal palestrar. Não obstante ele ter ficado com a responsabilidade de clarificar aspectos sobre a obra-prima dúbia RASTROS DE ÓDIO (1956), seu discurso – conforme realçado por vários depoentes – foi vago, preocupando-se muito mais com os “erros de gravação” do filme e com os “defeitos” fordianos que necessariamente com aspectos marcantes e constitutivos do filme. Ele chegou, inclusive, a declarar que a ótima interpretação de Jeffrey Hunter nesta obra era caricatural, o que irritou muitos dos espectadores, incluindo a professora Maíra Ezequiel, palestrante da próxima terça-feira [sobre o filme NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (1939)], numa intervenção que foi deveras elogiada.
Em seguida, foi exibido O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES (1936 – vide fotograma), um dos mais fracos do diretor, mas, ainda assim, permeado por suas marcas registradas ainda em processo de maturação.Werbson Alves ficou incomodadíssimo com o filme e Bruna Laísademonstrou uma enorme capacidade de superação ao vê-lo (visto que padece de elasmobranquiofobia crônica), mas, em conversa com Victor Cardozo (recém-conhecido e rapidamente convidado a participar das reuniões ordinárias do CECINE/UFS), pudemos verificar potentes virtudes tangenciais em meio às obviedades de seu enredo mal-envelhecido: a audácia por focalizar (e inocentar) um suposto inimigo dos lincolnianos e a elegância biográfica, além da bela fotografia de Bert Glennon, são alguns desses méritos, que levaram Wesley Pereira de Castro a repetir, mais de uma vez, “que a melhor coisa dos filmes considerados menores na filmografia de grandes gênios é que eles nos ajudam a compreender em que medida os erros associam-se a tentativas autorais incompreendidas”. Quem viu o filme pode até reclamar que ele seja involuntariamente cômico em mais de um aspecto (a caracterização afetada de John Carradine, conforme notada por Joel, por exemplo), mas é indubitavelmente fordiano

No sábado, 10 de maio, não houve palestra, mas, tal qual fora antecipadamente convocado, os integrantes do CECINE/UFS compareceram entusiasmadamente à sessão, que estava particularmente lotada, o que corresponde a um mérito para o organizador local da Mostra, Wolney. O primeiro filme exibido neste sábado foi A MOCIDADE DE LINCOLN (1939), um dos melhores do diretor, mas também uma de suas produções mais ideologicamente irritantes [toda a seqüência do julgamento, conduzida por um jovem Abraham Lincoln (magnificamente vivificado pelo esplendoroso Henry Fonda) beira a chantagem emocional, de tão emotivamente forçada], o que foi comprovado pelas interjeições de simultâneas devoção e aporrinhação externadas por Romero Venancio.
Ao término desta sessão – que teve como mérito adicional a massiva presença de estudantes empenhados do curso de Audiovisual da UFSKarla Caroline Magalhaes, Cleiton Lobo, etc.] – os cecinéfilos sentaram-se para debater o que sentiram durante a projeção no intervalo até o filme seguinte, o supracitado VINHAS DA IRA, que engendrou uma comoção altissonante entre os componentes da platéia: Brenda Helena, Wesley, Robson, Anny Anjos, Daniela da Silva, estavam todos marejados frente a tanta genialidade e comprometimento social [num viés que substitui as exortações socialistas do original literário de John Steinbeck pela ode à comunidade (maternalista) que será tão característica das obras posteriores do mestre John Ford], o que rendeu um diálogo magistral comManoela Veloso Passos e os demais citados na ante-sala do cinema. Debatemos entre nós a vastidão dos sentimentos e impressões que o cinema extremamente autoral de John Ford (1895-1973) – por mais que pareça retroalimentar primordialmente os cacoetes da “montagem invisível” e da linearidade narrativa hollywoodianas – nos causa, sendo, obviamente, imprescindível a audiência (e revisão) de suas demais obras, visto que ele realizou quase cento e cinqüenta filmes, erigindo uma forma sobremaneira pessoal de enxergar o mundo. Charles Andrade ficou no cinema para ver o próximo filme que seria exibido, enquanto os demais espectadores seguiram os seus respectivos destinos, todos latejando cerebral e afetivamente o que consumiram durante a Mostra John Ford, além de se reconhecerem como compartilhadores de uma alma cinefílica que nos une cada vez mais. Na terça, dia 13 de maio, e na quarta, dia 14, mais alguns clássicos fordianos serão (re)exibidos. Quem puder conferir, não se arrependerá. Seja como for, no sábado seguinte, dia 17 de maio, voltaremos a nos reunir para compreender melhor a imagem-perceção deleuzeana, a partir da exposição de Caio Amado sobre o cinema vertoviano. Reencontraremo-nos, portanto, e teremos ainda muito o que dialogar, aprender e disseminar! 

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