segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 14

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 12 DE ABRIL DE 2014:
“Gilles Deleuze não explica este filme, mas este filme explica o Deleuze!”. Esta foi a frase bombástica que Caio Amado exclamou ainda durante os créditos finais do genial O SABOR DA MELANCIA (2005, de Tsai Ming-Liang), filme que vimos como demonstração contemporânea do conceito de “cinema de poesia”, segundo o viés pasoliniano.
Tal obra, filme favorito do anfitrião Jadson Teles, foi apresentado pelo mesmo, que compartilhou conosco algumas observações cruciais sobre a biografia do realizador e situou o contexto das inúmeras possibilidades discursivas do filme, que tematiza os estragos “incomunicabilizantes” da globalização despejada a fórceps numa cidade com tradições culturais longevas (no caso, Taipé, capital de Taiwan). Na trama (ou no que pode ser extraído a partir dela), acompanhamos as desventuras de Hsiao-Kang (Lee Kang-Cheng), personagem que atravessa a integralidade da obra do cineasta, que trabalha como ator pornográfico e reencontra a moça por quem se apaixonara nos filmes anteriores, mas de quem se afastou por causa das imposições capitalistas do acaso...
Em sua apresentação, Jadson deixou claro que uma análise sobre as modificações sofridas pelo cinema ao longo dos anos era um dos subtemas ming-lianguianos, o que se torna particularmente evidente nas diversas seqüências que mostram a realização dos filmes pornográficos que Hsiao-Kang estrela. Porém, diversas outras associações e interpretações saltam aos olhos, de maneira que, ao final da sessão, Caio Amado, extremamente empolgado com o que vira (pela primeira vez), listou um verdadeiro compêndio de possibilidades hermenêuticas geniais acerca do que vimos. O detalhe: sem lembrar imediatamente que este filme é minuciosamente conectado com as obras anteriores do mesmo diretor, o mentor do CECINE/UFS desvendou estratagemas integrais da obra do cineasta malaio (mas radicado em Taiwan), como a importância simbólica das funções corpóreas elementares (discorrendo inclusive sobre uma metáfora de canibalismo), os enquadramentos inusitados (alguns deles em lente grande angular) que metonimizam no próprio espaço filmado as bifurcações tramáticas, e a reificação crescente do sexo nas sociedades contemporâneas, sendo a água em profusão (ou retida) uma personificação objetal do desejo.


Insistindo que, neste filme, “Tsai Ming-Liang radicalizou de vez!”, Caio Amado comparou o impacto desta obra ao de O IMPÉRIO DOS SENTIDOS (1976, de Nagisa Oshima), o que suscitou um debate paralelo sobre erotismo, ao qual Wesley Pereira de Castro contribuiu de maneira reticente, visto que se incomodara com um pequeno trecho do filme, por considerá-lo discursivamente pleonástico. Deixando claro, entretanto, que o seu desagrado correspondia a um infinitésimo da projeção (utilizando suas próprias palavras: “uma gota desperdiçada de sêmen num oceano de pornografia”), Wesley também não escondeu a sua extrema satisfação com o filme, insistindo em corresponder alguns de seus signos com as manifestações anteriores na obra do cineasta, um dos mais inteligentes da contemporaneidade, segundo consenso entre os espectadores presentes à sessão.
Continuando com as suas inquietações, Wesley correlacionou os instantes musicais do filme – nos quais os personagens expressam o que sentem através de canções pré-existentes, enquanto quedam silenciosos durante quase todo o restante da projeção – à ferramenta narrativa da “subjetiva indireta livre”, que vem sendo investigada pormenorizadamente nos últimos filmes vistos, por ser a chave da interpretação poética de Pier Paolo Pasolini. Brenda Helena acrescentou uma observação neste sentido, confessando que ficara na expectativa doutros tipos de manifestação da referida figura de linguagem, além das canções. Daniela da Silva, por sua vez, reiterou o quanto o filme é de difícil apreensão num primeiro contato (principalmente, para quem nunca vira nada do cineasta) e se surpreendeu com o modo avaro como os personagens se relacionavam com a água, o que fazia bastante sentido na trama, dado que, segundo percebemos a partir da audição de telejornais intradiegéticos, Taipé passava por uma seca inclemente, e as pessoas tentavam consolar a ausência deste recurso mineral elementar com a pletora de melancias, utilizadas para fazer refrescos, simular gravidezes e, até mesmo, preambular uma penetração vaginal. Incrível a original do cineasta: vide o segmento em que as dificuldades masturbatórias do protagonista engendram o momento captado em fotograma. Alguém Bruna Laísa, se não me engano) até comentou: “nossa, como ele é criativo: nem mesmo as duas bolas foram esquecidas!” (risos)
Na semana que vem, por conta da Semana Santa [19 de abril deste ano é Sábado de Aleluia, dia em que os cristãos tradicionalmente queimam bonecos de Judas Iscariotes para, hipocritamente, expiarem os próprios pecados através de um bode expiatório inanimado], não haverá reunião, mas, no sábado subseqüente, dia 26 de abril de 2014, voltaremos à leitura do texto-base deleuzeano, com a discussão do segmento 2 do quinto capítulo (“A Imagem-Percepção”) de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”. Wesley ficou responsável pela apresentação do referido segmento, mas a discussão conjunta das questões, dúvidas e eventuais discordâncias que surjam durante a leitura dará a tônica divertida do nosso reencontro vindouro. Até lá!

Nenhum comentário:

Postar um comentário