RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 17 DE MAIO DE 2014: “O filme dramático é o ópio do povo... Abaixo os roteiros burgueses de contos-de-fada: salve a vida como ela é!”.
Este depoimento esbravejante é atribuído ao polemista Dziga Vertov (1896-1954), cineasta russo nascido na Polônia, que, nas décadas de 1920 e 1930, destacou-se na antiga URSS por conta de suas experimentações formais impressionantes, aderindo ao teor propagandístico da época sob a forma de uma apaixonada devoção ao recém-falecido líder bolchevista Vladimir Ilitch Lenine, vulgo Lênin (1870-1924), praticamente endeusado nas obras do cineasta.
O interesse específico dos cecinéfilos em suas obras, na reunião ordinária deste sábado, deveu-se à alegação deleuzeana de que o seu cinema, além da noção revolucionária de “intervalo” cinematográfico [“ponto em que o movimento se detém e, detendo-se, vai poder se inverter, se acelerar, se reduzir...”], possuía imagens-percepção de aspecto gasoso, em oposição às imagens líquidas do cinema impressionista francês. Nesse sentido, optamos por ver três filmes vertovianos em seguida, a fim de percebemos as tais imagens gasosas e identificar opções estéticas que estendessem aquilo que já percebêramos no extraordinário UM HOMEM COM UMA CÂMERA (1929)...
Depois de uma empolgada explanação do mentor Caio Amado sobre as condições do governo e cinema soviéticos desde a Revolução de 1917 até meados de 1950, após o falecimento de Josef Stalin (1878-1953), vimos o ótimo CINE-OLHO (1924), que fascinou os espectadores por seus efeitos de reversão de movimentos, mas que deixava entrever um pendor exageradamente panfletário do elã socialista, num viés muito mais ostensivo que aquele percebido na obra-prima anteriormente mencionada.
Em seguida a este filme, vimos o excelente A SEXTA PARTE DO MUNDO (1926 – vide fotograma), magnífico afresco do diretor sobre as diferenças culturais do enorme território da então chamada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Percebe-se que o diretor legitima a planilha do “Quebra-Gelo Lênin” acerca da homogeneização das culturas soviéticas, numa perspectiva que destaca a luta contra a opressão capitalista como mais importante que qualquer outra necessidade, mas que não prescinde da adesão coletiva e ferrenha a esta luta. Ficamos todos impressionados com o que vimos!
Após um debate comparativo sobre ambas as obras e as diferenças essenciais entre o estilo formalista vertoviano e o ‘modus operandi’ eisensteiniano, Jadson Teles, Wesley Pereira de Castro e Anny Anjosviram ENTUSIASMO (1930), primeira obra sonora do cineasta, mas que os decepcionou sobremaneira, não obstante ser o favorito de Manoela Veloso Passos. Apesar de este filme ter chegado a fascinar Charles Chaplin, que considerou uma magistral organização sinfônica dos sons industriais, o filme enfadou os cecinéfilos que o prestigiaram conjuntamente, por causa do fervor impositivo de seus hinos socialistas, da inconvincente substituição das igrejas destruídas pelo proletariado em prol da sagração leniniana extremada (em que seus escritos revolucionários servem como sucedâneo da Bíblia Sagrada) e da quase exortação ao fordismo socialista que abunda nos minutos finais da produção. Infelizmente, não funcionou conosco, mas é um filme que possui inúmeras proezas, principalmente em seus minutos iniciais, que evidenciam o seu caráter experimental sonoro, em comunhão com as inovações visuais típicas do diretor. Vale a pena conferir TRÊS CANÇÕES PARA LÊNIN (1934) para saber o que vem em seguida (risos)...
Na semana que vem, mergulharemos no cinema ‘underground’ norte-americano, que dá continuidade Ao estratagema da “montagem piscante” levada a cabo por Dziga Vertov, conforme destacado por Gilles Deleuze. Daqui para o sábado, uma convocatória para a reunião ordinária e psicodélica será aqui publicada.

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