RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 15 DE MARÇO DE 2014: “Neste seu segundo filme colorido, [Michelangelo] Antonioni chegou a pintar paredes e até gramados, para chegar a cores que expressassem o sentimento dos personagens. O famoso diretor do ‘cinema da angústia’ permanece tão angustiado quanto na trilogia precedente, que fez as delícias dos críticos dos anos 60. Ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza, e alguns ressaltam coisas como o início, idêntico ao final, e uma suposta preocupação ecológica. O público ressalta a ininteligibilidade, a imobilidade e o ritmo lento” (“Guias Práticos Nova Cultural – Vídeo 1993” – página 317).
O trecho acima, retirado de um material diuturno de consulta, revela o quanto o cinema antonioniano, por mais genial que seja, ainda assusta, é incompreendido. São diversas as informações dignas de correção no texto (principalmente no que tange ao numeral ordinal da primeira oração), mas não é uma apreciação incomum: as duas estrelas da cotação que o filme recebeu no referido guia têm a ver com uma rejeição preconceituosa ao filme, hoje reavaliado até mesmo pelos tecnicistas, que se deslumbram pelo extraordinário trabalho cromático da realização.
Graças a uma cópia impecável do filme, pudemos apreciar minuciosamente a maestria de seus componentes fotográficos e a supremacia da interpretação da protagonista Monica Vitti, que, com certeza, graças à quase onipresença da subjetiva indireta livre no filme, contagia os espectadores, que literalmente sentem a sua depressão, o seu deslocamento incoeso no mundo.
Na sessão, havia quatro homens e quatro mulheres: os primeiros já haviam visto o filme; os segundos, não. Esta divisão de gênero foi ressaltada mais tarde, quando se indagou acerca das possibilidades de manifestação da histeria em pessoas do sexo masculino ( Daniela da Silva expôs interessantes estatísticas da Psicologia sobre o assunto - risos). Seja como for, os oito cecinéfilos presentes à reunião ficaram conjunta e positivamente embasbacados com a genialidade da obra. Em dado momento da discussão – que contou com o extraordinário conhecimento sócio-histórico o mentor Caio Amado acerca das particularidades econômicas das regiões citadinas que aparecem no filme – Jadson Teles relembrou a divisão entre os cineastas matemáticos (ou geométrico-platônicos) e os dinâmicos (ou físico-estóicos) a que o autor Gilles Deleuze se refere no segundo capítulo do livro-base, “Quadro e plano, enquadramento e decupagem”. Michelangelo Antonioni pertence, indubitavelmente, à primeira categoria, haja posto que, em seus filmes, “existem condições para a existência dos corpos, cuja essência os limites vão fixar”. Foi uma ótima discussão, regada a biscoitos e refrigerante de limão.
Nas reuniões ordinárias subseqüentes, continuaremos a ver filmes que satisfaçam as condições de perspectiva personalísticas estudadas por Pier Paolo Pasolini em seu artigo “Cinema de Poesia”, conforme destacado por Gilles Deleuze. Os filmes seguintes são, portanto: “Antes da Revolução” (1964, de Bernardo Bertolucci); “O Demônio das Onze Horas” (1965, de Jean-Luc Godard); “A Colecionadora” (1967, de Éric Rohmer); e “Terra em Transe” (1967, de Glauber Rocha), nesta ordem. Novos títulos ou programações podem ser adicionados posteriormente, a depender da condução dos estudos. Por ora, seguimos nos recuperando do impacto de ter revisto a obra-prima italiana em pauta. Conforme resumiu Wesley Pereira de Castro ao final da sessão, “nossas vidas serão completamente diferentes depois desta sessão!”. Era um chiste apaixonado, mas, também, uma dedução heraclitiana.

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