segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 27

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 02 DE AGOSTO DE 2014: “Anne, a heroína de DIAS DE IRA [1943], tal como Joana d’Arc, terminará na fogueira: uma, pelo amor ao distante, invisível e absoluto (Deus), que adiciona a meditação eclesiástica tanto enquanto representação quanto intercessão deste divino; a outra, por amor ao próximo, por ter desejado aquele que era justamente o mais próximo (Martin, filho de Absalon, seu marido), tocando inconscientemente no interdito do incesto que ameaça destruir o edifício familiar, outra contrapartida institucional no coração da lei da reprodução das espécies”.
O trecho acima está contido no texto redigido por Charles Tesson, sobre o filme dreyeriano, para a edição especial da revista Cahiers du Cinéma “100 Films por une Videoteque”, publicada em dezembro de 1993. No referido texto, o crítico menciona uma seqüência-chave do filme, em que a protagonista costura algo e é reprimida por sua sogra, visto que a imagem de uma criança nua é reprimida, tanto por relembrar a frustração de Anne por nunca ter engravidado quanto por deixar evidente a sua excitação fecundativa. Nesse sentido, a figura de linguagem extraída de uma passagem bíblica do Cântico dos Cânticos – a da macieira que se destaca em relação às outras arvores por associar-se à figura do ser amado – é realçada, por inscrever “o emblema da imagem como expressão concomitante do desejo e da inscrição da negatividade do dogma cristão (a maçã de Eva), pois todo desejo, conforme assim representado, declina em retorno sobre o sujeito que produz a figura da tentação, a pintura do mal, através da diabolização da inveja, que é tanto cadinho quanto revelação”. E, neste sentido, a cena em que uma arvore envergada refletida num rio é interpretada diferentemente por dois amantes (para um, é um indicativo de mágoa; para a outra, é o sinal da indissociabilidade do desejo) antecipa o pungente desfecho, que deixou os cecinéfilos atordoados ao final da sessão...
Precisamos de algum tempo para termos coragem de comentar o que vimos. Daniela da Silva acrescentou que só ficara tão impactada na sessão de O DESERTO VERMELHO (1964, de Michelangelo Antonioni), com a diferença de que, neste filme – por mais intensamente depressivo que ele seja – havia o consolo sinestésico das cores. No caso dreyeriano, o preto-e-branco austero oprime ainda mais, visto que é exitoso em reconstituir o clima de trevas que abundava na época em que a trama é passada, durante as perseguições inquisicionais do século XVII.
Segundo uma exegese levada a cabo por Jean Sémoulé e mencionada por Carlos Fonseca, no dossiê sobre “O Cineasta da Vida Interior” publicado na 11ª edição de Filme Cultura (lançada em novembro de 1968, cujo ‘link’ virtual será disponibilizado nos comentários), DIAS DE IRA é um filme que pode ser dividido em quatro grandes blocos: “Anne diante do passado (sua mãe) e do futuro (Martin)”; “Anne quer conhecer a felicidade”; “Anne quer assegurar sua felicidade”; e “Anne renuncia à felicidade”. Magnificamente interpretada por Lisbeth Movin, é ela a portadora facial da imagem-afecção diagnosticada por Gilles Deleuze, sobre a qual estamos nos debruçando nas últimas reuniões, o que explica este mergulho na egrégia filmografia de Carl Theodor Dreyer. Em todo o filme, entretanto, encontramos indícios abundantemente afetivos: as interpretações são tão contidas quanto transcendentes. A terna personificação da velhinha Herlof’s Marthe (Anna Svierkier), impiedosamente atirada numa fogueira sob a acusação de ser bruxa, que o diga!
Encerrada a sessão, Wesley Pereira de Castro confessou que, tendo revisto o filme, ficou impressionado por ter bloqueado mnemonicamente as seqüências de lascívia, tamanha a austeridade religiosa da encenação;Anny Anjos, por sua vez, quase uma homônima da protagonista, compartilhou conosco algumas de suas experiências enquanto adolescente forçadamente evangélica (de tendência adventista), o que fez com que ela fosse submetida a algumas contenções similares às que acontecem no filme; Jadson Teles aproveitou a deixa para comparar os temas recorrentes da filmografia dreyeriana àquilo que ele leu nas obras do filósofo dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855), em que é especializado, mencionando textualmente as relações entre discípulos e mestres que constam de “Migalhas Filosóficas” (1844), livro que interessou sobremaneira ao empolgado Caio Amado, que se divertiu bastante, antes de ir embora, ao constatar que “o planeta está ficando bastante interessante nos últimos anos”. Esta exclamação de nosso mentor cecinéfilo tem a ver com as interessantes descobertas científicas externadas por Iara Chagas ao final da reunião, que, ao enumerar dragões-de-komodo que se reproduzem assexuadamente e javalis radioativamente contaminados por césio, poderia ser acusada de ser feiticeira caso ainda estivéssemos na Idade Média (risos). Às gargalhadas, o grupo aos poucos substituiu o torpor dramático instituído pelo filme pela felicidade pitoresca em saber que, nalgum lugar do mundo, existe um carrapato batizado em homenagem à cantora ‘pop’ Rihanna.
Não por acaso, este embate entre felicidade e tristeza, pólos extremos da entrega religiosa, será tematizado no filme que veremos na semana seguinte, em casa de Iara Chagas: A PALAVRA (1955), obra-prima suprema do diretor. As questões vinculadas às disputas clericais que perceberemos no filme foram antecipadas por um aprazível debate sobre as divergências religiosas asiáticas da contemporaneidade, de maneira que estas divergências religiosas hodiernas (no sentido institucional do termo) levam-nos a perceber que, aproveitando o título do filme, ainda vivemos em dias iracundos. Cabe ao CECINE/UFS providenciar legítima alegria cinefílica em nossos calorosos encontros de sábado. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário