segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 08


RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 15 DE FEVEREIRO DE 2014: "A coisa e a percepção da coisa são uma única e mesma coisa, uma única e mesma imagem, mas reportada a um ou outro dos dois sistemas de referência. A coisa é a imagem tal como ela é em si, tal como ela se reporta a todas as outras imagens, das quais sofre integralmente a ação e sobre as quais reage imediatamente. Mas a percepção da coisa é a mesma imagem reportada a uma outra imagem especial que a enquadra, e que dela só retém uma ação parcial e a ela só reage mediatamente. Na percepção assim definida, jamais há outra coisa, ou mais que na coisa: ao contrário, há 'menos'. Percebemos a coisa, menos o que não nos interessa, em função de nossas necessidades".

Este trecho sintético do segundo segmento do quarto capítulo ["A imagem-movimento e suas três variedades: segundo comentário de Bergson"] de CINEMA 1: A IMAGEM-MOVIMENTO, de Gilles Deleuze, me marcaria perpetuamente até o final da reunião deste sábado, mas, antes de eu clarificar o motivo (filosófico-cinematográfico) para tal, antecipo que, na reunião em pauta, o mentor Caio Amado constatou o quanto este capítulo é essencial para se compreender adequadamente as demais idéias do livro e, de lambuja, uma parcela considerável do pensamento deleuzeano como um todo.

Tecendo considerações sobre a matéria [ou imagem] viva como um centro de indeterminação que (re)age imprevisivelmente às ações exteriores [ou seja, a imagem viva é o intervalo, "um hiato entre a ação e a reação"), o autor deixa claro que "toda percepção é, antes de tudo, sensório-motora", e, a partir daí, diferencia com mais detalhes a imagem-percepção (associada, no cinema, ao plano de conjunto), a imagem-ação (associada ao plano médio), e a imagem-afecção (associada ao 'close-up'), sendo a primeira reportada a corpos (ou substantivos), a segunda a atos (verbos) e a terceira a qualidades (adjetivos).

No terceiro segmento do capítulo destacado, o autor menciona um curta-metragem ["Film" (1965, de Alan Schneider - vide foto), idealizado por Samuel Beckett] que contém, em sua progressão, os três tipos de imagens. A fim de ilustrar melhor o que o autor explicava, assistimos ao filme em grupo e empreendemos um debate sobre o mesmo logo em seguida, reiterando o quanto o apotegma 'esse est percipi' ["ser é ser percebido"], do arcebispo irlandês Berkeley, não apenas nos afetava pessoalmente enquanto seres vivos como tinha a ver com a genialidade compositiva da obra, protagonizada por um versátil e magnânimo Buster Keaton, num de seus últimos trabalhos, aos 69 anos de idade.



No filme, segundo o autor, as três variedades de imagem-movimento se sucedem, através de um estratagema mui original, em que foi elaborado "um sistema simbólico de convenções simples, segundo as quais as três imagens se extinguem sucessivamente, como a condição que torna possível esta tendência [recriar o plano acentrado das imagens-movimento puras, para nele se instalar] do cinema experimental em geral"


decorrente de uma observação eisensteinina, que Gilles Deleuze se serve para encerrar o seu fundamental terceiro capítulo: "cada uma dessas imagens-movimento é um ponto de vista sobre o todo do filme, uma maneira de captar esse todo, que se torna afetivo no primeiro plano, ativo no plano médio, perceptivo no plano de conjunto, cada um desses planos deixando de ser espacial para tornar-se, ele próprio, uma 'leitura' do filme inteiro". Nunca mais esquecermos disto, né?

Nenhum comentário:

Postar um comentário