RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 05 DE JULHO DE 2014: “Como se diz em TENSÃO EM SHANGAI (1941), ‘tudo pode acontecer a qualquer momento’. Tudo é possível... Uma faca rasga o filé, um ferro incandescente fura o véu, um punhal trespassa o tabique de papel. O mundo fechado vai passar por séries intensivas segundo os raios, as pessoas e os objetivos que o penetram. O afeto é feito desses dois elementos: a firme qualificação de um espaço branco, mas também a intensa potencialização do que nele vai ocorrer”.
Com este epítome, contido na página 114 da versão em .pdf de “Cinema 1: A Imagem-Movimento (sexto parágrafo do segundo segmento do capítulo 6, “A Imagem-Afecção: rosto e primeiro plano”), o filósofo Gilles Deleuze, mais uma vez, dá conta do que descreve como “antiexpressionismo sternberguiano”. Na reunião deste sábado, entretanto, o mentor Caio Amado fez questão de que abandonássemos momentaneamente as considerações deleuzenas e fossemos diretamente para a análise dos filmes, trazendo observações e percepções (afetivas) sobre os mesmos. Assim sendo, ele próprio iniciou com uma comparação elementar (e mui pessoal) entre o Expressionismo e a Nova Objetividade [variante realista (e pretensamente negadora)do referido movimento, do qual fazia parte o cineasta G. W. Pabst], destacando como características básicas do primeiro, a espiritualidade e o cientista louco enquanto arquétipo, e, do segundo, a sexualidade e o arquétipo da “mulher fatal” (ou ‘vamp’). Ou seja, se, nos filmes propriamente expressionistas, quando o amor surge, ele é mostrado por um prisma sumamente idealizado e/ou platônico, nos filmes da Nova Objetividade, o amor é genitalizado, é instintivo, é sexual, luxuriante, libidinoso.
Concordando plenamente com esta distinção, Wesley Pereira de Castrointerrogou Caio acerca da possibilidade de o ‘kammerspiel’ [subtendência expressionista reconhecida principalmente nos filmes de F. W. Murnau] ser um interstício transitivo entre os dois movimentos, o que ele referendou. Em ambas as tendências diferenciadas por Caio Amado, a afecção está presente, mas o estilo sternberguiano estaria mais bem compreendido na segunda, o que confirma a insistência do filósofo em tachá-lo de antiexpressionista. Jadson Teles, porém, considerou este termo equivocado, no sentido de que ele seria muito menos conceitual que provocativo. Complementou as suas impressões com observações kierkegaardianas que, não por acaso, serão reaproveitadas no capítulo seguinte do livro-base (“A Imagem-Afecção: qualidades, potências, espaços quaisquer”). Enfatizando a relevância da repetição [“a decisão por uma mesma coisa, que leva ao desespero”] nos filmes em que predominam a imagem-afecção, Jadson antecipou a divisão proposta por Soren Aaabye Kierkegaard entre os estádios da vida (estético, ético e religioso), que será estendida por Gilles Deleuze, que enquadra o cineasta austríaco no primeiro deles, estético ou passional.
Após vários cinéfilos se manifestarem Robson Viana reiterou as suas constatações fumegantes sobre o cinema sternberguiano; Victor Cardozorealçou a importância da música em O ANJO AZUL (1930) e defendeu a comicidade visceral de MULHER SATÂNICA (1935); Daniela da Silvaexplicou por que também apreciou deveras o último filme citado; etc.), concordamos que seria de bom tom assistirmos coletivamente ao primeiro longa-metragem do diretor THE SALVATION HUNTERS (1925 – fotograma à esquerda), deveras mencionado num ótimo artigo de Tag Gallagher sobre o diretor que Wesley leu durante a reunião. Ao término do filme, Caio ressaltou que, desde o seu filme primevo, manifestavam-se problemas de roteiro nos filmes sternberguianos, ao passo em que também estranhou o naturalismo que se instala nesta obra, mas elogiou as suas qualidades fotográficas, simbólicas e extensivamente temáticas. O grupo concordou com esta avaliação e, após uma breve deliberação acerca de quais filmes veremos grupalmente nas sessões seguintes (deliberação esta que voltará a ser assunto de relatorias e consultas coletivas), alguns se despediram e outros ficaram em casa de Jadson para assistirem ao bastante protelado TENSÃO EM SHANGAI (1941 – fotograma à direita), sobremaneira elogiado pelos críticos que apreciam Josef von Sternberg e particularmente exortado por Gilles Deleuze no que tange ao realce compositivo das “sombras que afetam no rosto a zona dos olhos”. Com exceção de Yuri Ferreira, entretanto, os demais espectadores não apreciaram muito o filme – inclusive, Nina Sampaio, que se incomodou com o excesso inaproveitado de personagens. Mas é um filme muitíssimo bem-dirigido e com ingredientes ‘kitsch’ que merecem ser reverenciados. Quiçá voltaremos a ele nos debates vindouros, mas, por ora, ficou programada para a reunião seguinte, em 12 de julho de 2014, a leitura do terceiro segmento do sexto capítulo do livro-base, com comentários adicionais do anfitrião Jadson Teles. Daqui para lá, entretanto, teremos muito o que conversar, visto que Caio sugeriu que elaborássemos sugestões de filmes (não apenas aqueles mencionados no texto) que possam ilustrar os pensamentos deleuzeanos sobre a imagem-afecção. Mantenhamo-nos em contato (principalmente afetivo), portanto!
RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 19 DE JULHO DE 2014: “[Ingmar] Bergman é, sem dúvida, o autor que mais insistiu sobre o elo fundamental que une o cinema, o rosto e o primeiro plano: ‘Nosso trabalho começa com o rosto humano. (...) A possibilidade de se aproximar do rosto humano é a originalidade primeira e a qualidade distintiva do cinema’. Um personagem abandonou sua profissão, renunciou ao seu papel social; não pode mais ou não quer se comunicar, se impõe um mutismo quase absoluto; perde até sua individuação, a ponto de adquirir uma estranha semelhança com o outro, uma semelhança por carência. Com efeito, tais funções do rosto supõem a atualidade de um estado de coisas em que pessoas agem e percebem. A imagem-afecção vai fazê-las derreter, desaparecer. Estamos diante de um roteiro de Bergman”.
Com esta descrição, constante do terceiro segmento do capítulo 6 de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”, “A imagem-afecção: rosto e primeiro plano”, o autor Gilles Deleuze não apenas dá conta dos elementos contidos no subtítulo como também antecipa o que será destacado no capítulo seguinte, também sobre a imagem-afecção: “qualidades, potências, espaços quaisquer”. A sinopse de PERSONA – QUANDO DUAS MULHERES PECAM (1966 – vide fotograma essencial) foi deslindada mui oportunamente, mas o segmento tem em Carl Theodor Dreyer (1889-1968) o seu autor nodal, por conta da radicalidade do primeiro plano que ele opera em O MARTÍRIO DE JOANA D’ARC (1928), que será visto pelo grupo na reunião semana que vem, dia 26 de julho de 2014, na casa da recém-integrada Iara Chagas [mais detalhes sobre o endereço dela ao longo da semana]...
A reunião foi deveras participativa (até mesmo Daniela da Silva superou a sua timidez e leu um parágrafo conosco!), e o mentor Caio Amado estava particularmente inspirado, o tempo inteiro questionando-nos se estávamos a compreender a salada de referências teoréticas contida no texto, que ia da semiótica peirceana até uma distinção elementar entre o modo como platônicos, aristotélicos e estóicos posicionam-se em relação aos receptáculos de afeto. Logo no início do segmento, inclusive, Gilles Deleuze deixou claro que o seu modo de encarar a imagem-afecção (sinonimizada pelo primeiro plano) a distingue de sua apresentação enquanto objeto parcial pela psicanálise (que a associa à castração) ou pela lingüística (que a encara enquanto sinédoque). Neste sentido, Caio e a citada Daniela trouxeram à tona seus conhecimentos particulares sobre as teorias deleuzeanas para compartilharem a importante noção do fluxo entre “máquinas desejantes”. E, impactados diante de tamanha criatividade, genialidade e elaboração textual, os cecinéfilos sorriam, extasiados.
Servindo-se de percepções kafkanianas, o autor diferencia duas linhagens tecnológicas que são consideradas igualmente modernas: os meios de transporte (ou de “comunicação-translação”, como prefere o filósofo), que “asseguram nossa inserção e nossas conquistas no espaço e no tempo”; e os meios de comunicação propriamente ditos (ou de “comunicação-expressão), que, por sua vez, “suscitam os fantasmas em nosso caminho, e nos desviam rumo a afetos desordenados, fora de coordenadas”. Os ‘road movies’ primevos de Wim Wenders funcionam como demonstrações combinatórias de ambas as perspectivas, mas Caio chamou a atenção para a necessidade de se complementar este tipo de percepção, tentando encaixar as mudanças instituídas pela Internet no processo. Wesley Pereira de Castro sugeriu um cotejo com o que é apregoado por Gilles Lipovestky em “A Tela Global”, mas a sugestão será previamente analisada, do mesmo modo que também o será a descrição efetuada por Josef Früchtl acerca do que ele chama de “modernidade híbrida”, caracterizada sobretudo pelos filmes de ficção científica. Não faltaram observações adicionais, inclusive, principalmente no que tange ao cabedal filosófico de Jadson Teles, que também mencionou debates contemporâneos sobre “o fim da arte” e questionamentos congêneres, para os quais os quadros expostos na parede do anfitrião Victor Cardozo foram deveras contributivos observacionalmente.
Durante e após a leitura, os cecinéfilos combinaram seus múltiplos conhecimentos a fim de manifestarem apreço pela sintética definição que encerra o capítulo 6, em pauta: “assim é a imagem-afecção: ela tem por limite o afeto simples do medo, e o apagar dos rostos no nada. Mas tem por substancia o afeto composto pelo desejo e pelo espanto que lhe dá vida, e o afastar-se dos rostos no aberto, no vivo”. Wesley imitou um pastor evangélico ao ler, duas vezes, este trecho. Perguntou, chistosamente: “eu ouvi um ‘amém’?”. Como dizer o contrário diante de tamanha manifestação teológica num excerto textual?!
Antes da leitura, Caio sugeriu que, nas reuniões vindouras, compartilhássemos nossos conteúdos filmográficos e apresentássemos apontamentos que interessam ao grupo, como a reiterada necessidade de criar um ‘blog’ para disseminação de nossos próprios textos sobre o que estamos estudando. Ao final, o anfitrião convidou os presentes a se deliciarem com os pratos preparados por sua mãe, incluindo um bolo que, coincidentemente, contemplava os aniversariantes do dia anterior, Iara e Jadson. Para as reuniões seguintes, além do supracitado filme dreyeriano, veremos também obras de Ingmar Bergman, de Robert Bresson e de Lars von Trier. À medida que os títulos forem escolhidos deliberativamente, indico-os aqui. Por ora, vale a pena reler o segmento e aplaudir o brilhantismo deleuzeano: sábado que vem tem mais! (WPC>)


![RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 19 DE JULHO DE 2014: “[Ingmar] Bergman é, sem dúvida, o autor que mais insistiu sobre o elo fundamental que une o cinema, o rosto e o primeiro plano: ‘Nosso trabalho começa com o rosto humano. (...) A possibilidade de se aproximar do rosto humano é a originalidade primeira e a qualidade distintiva do cinema’. Um personagem abandonou sua profissão, renunciou ao seu papel social; não pode mais ou não quer se comunicar, se impõe um mutismo quase absoluto; perde até sua individuação, a ponto de adquirir uma estranha semelhança com o outro, uma semelhança por carência. Com efeito, tais funções do rosto supõem a atualidade de um estado de coisas em que pessoas agem e percebem. A imagem-afecção vai fazê-las derreter, desaparecer. Estamos diante de um roteiro de Bergman”.
Com esta descrição, constante do terceiro segmento do capítulo 6 de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”, “A imagem-afecção: rosto e primeiro plano”, o autor Gilles Deleuze não apenas dá conta dos elementos contidos no subtítulo como também antecipa o que será destacado no capítulo seguinte, também sobre a imagem-afecção: “qualidades, potências, espaços quaisquer”. A sinopse de PERSONA – QUANDO DUAS MULHERES PECAM (1966 – vide fotograma essencial) foi deslindada mui oportunamente, mas o segmento tem em Carl Theodor Dreyer (1889-1968) o seu autor nodal, por conta da radicalidade do primeiro plano que ele opera em O MARTÍRIO DE JOANA D’ARC (1928), que será visto pelo grupo na reunião semana que vem, dia 26 de julho de 2014, na casa da recém-integrada Iara Chagas [mais detalhes sobre o endereço dela ao longo da semana]...
A reunião foi deveras participativa (até mesmo Daniela da Silva superou a sua timidez e leu um parágrafo conosco!), e o mentor Caio Amado estava particularmente inspirado, o tempo inteiro questionando-nos se estávamos a compreender a salada de referências teoréticas contida no texto, que ia da semiótica peirceana até uma distinção elementar entre o modo como platônicos, aristotélicos e estóicos posicionam-se em relação aos receptáculos de afeto. Logo no início do segmento, inclusive, Gilles Deleuze deixou claro que o seu modo de encarar a imagem-afecção (sinonimizada pelo primeiro plano) a distingue de sua apresentação enquanto objeto parcial pela psicanálise (que a associa à castração) ou pela lingüística (que a encara enquanto sinédoque). Neste sentido, Caio e a citada Daniela trouxeram à tona seus conhecimentos particulares sobre as teorias deleuzeanas para compartilharem a importante noção do fluxo entre “máquinas desejantes”. E, impactados diante de tamanha criatividade, genialidade e elaboração textual, os cecinéfilos sorriam, extasiados.
Servindo-se de percepções kafkanianas, o autor diferencia duas linhagens tecnológicas que são consideradas igualmente modernas: os meios de transporte (ou de “comunicação-translação”, como prefere o filósofo), que “asseguram nossa inserção e nossas conquistas no espaço e no tempo”; e os meios de comunicação propriamente ditos (ou de “comunicação-expressão), que, por sua vez, “suscitam os fantasmas em nosso caminho, e nos desviam rumo a afetos desordenados, fora de coordenadas”. Os ‘road movies’ primevos de Wim Wenders funcionam como demonstrações combinatórias de ambas as perspectivas, mas Caio chamou a atenção para a necessidade de se complementar este tipo de percepção, tentando encaixar as mudanças instituídas pela Internet no processo. Wesley Pereira de Castro sugeriu um cotejo com o que é apregoado por Gilles Lipovestky em “A Tela Global”, mas a sugestão será previamente analisada, do mesmo modo que também o será a descrição efetuada por Josef Früchtl acerca do que ele chama de “modernidade híbrida”, caracterizada sobretudo pelos filmes de ficção científica. Não faltaram observações adicionais, inclusive, principalmente no que tange ao cabedal filosófico de Jadson Teles, que também mencionou debates contemporâneos sobre “o fim da arte” e questionamentos congêneres, para os quais os quadros expostos na parede do anfitrião Victor Cardozo foram deveras contributivos observacionalmente.
Durante e após a leitura, os cecinéfilos combinaram seus múltiplos conhecimentos a fim de manifestarem apreço pela sintética definição que encerra o capítulo 6, em pauta: “assim é a imagem-afecção: ela tem por limite o afeto simples do medo, e o apagar dos rostos no nada. Mas tem por substancia o afeto composto pelo desejo e pelo espanto que lhe dá vida, e o afastar-se dos rostos no aberto, no vivo”. Wesley imitou um pastor evangélico ao ler, duas vezes, este trecho. Perguntou, chistosamente: “eu ouvi um ‘amém’?”. Como dizer o contrário diante de tamanha manifestação teológica num excerto textual?!
Antes da leitura, Caio sugeriu que, nas reuniões vindouras, compartilhássemos nossos conteúdos filmográficos e apresentássemos apontamentos que interessam ao grupo, como a reiterada necessidade de criar um ‘blog’ para disseminação de nossos próprios textos sobre o que estamos estudando. Ao final, o anfitrião convidou os presentes a se deliciarem com os pratos preparados por sua mãe, incluindo um bolo que, coincidentemente, contemplava os aniversariantes do dia anterior, Iara e Jadson. Para as reuniões seguintes, além do supracitado filme dreyeriano, veremos também obras de Ingmar Bergman, de Robert Bresson e de Lars von Trier. À medida que os títulos forem escolhidos deliberativamente, indico-os aqui. Por ora, vale a pena reler o segmento e aplaudir o brilhantismo deleuzeano: sábado que vem tem mais! (WPC>)](https://scontent-a-gru.xx.fbcdn.net/hphotos-xap1/v/t1.0-9/s480x480/10505528_10203594619738443_7172741656561245531_n.jpg?oh=8c494bfa3f5bfea1ba2f9e0aff061f4b&oe=549408F8)
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