segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 10

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 08 DE MARÇO DE 2014: "Não nos encontramos mais diante de imagens subjetivas ou objetivas: somos apanhados numa relação entre uma imagem-percepção e uma consciência-câmera que a transforma (portanto, a questão do saber se a imagem era objetiva ou subjetiva não se coloca mais). É um cinema muito especial que adquiriu o gosto de 'fazer sentir a câmera'. e [Pier Paolo] Pasolini analisa alguns procedimentos estilísticos que atestam a existência dessa consciência reflexionante ou desse 'cogito' propriamente cinematográfico: o 'enquadramento insistente', 'obsedante', que faz com que a câmera espere que o personagem entre no quadro, faça ou diga alguma coisa, e depois saia, enquanto ela continua enquadrando o espaço que voltou a ficar vaio, 'deixando novamente o quadro entregue à sua pura e absoluta significação de quadro'; 'a alternância de objetivas diferentes sobre uma mesma imagem' e o uso excessivo de 'zoom', que duplicam a percepção com uma consciência estática independente... Em suma, a imagem-percepção encontra o seu estatuto, como subjetiva livre indireta, assim que reflete seu conteúdo numa consciência-câmera que se tornou autônoma ('cinema de poesia')"...
Este trecho do quinto capítulo de "Cinema 1: A Imagem-Movimento", em que Gilles Deleuze (re)define a imagem-percepção a partir de um texto pasoliniano absolutamente genial acerca do "cinema de poesia" (mas que pode ser estendido ao que André Bazin conceituava como "cinema moderno") proporcionou a reunião quiçá mais fluída desta ressurreição discursiva do CECINE/UFS, graças não apenas à participação efetiva dos cecinéfilos ( Manoela Passos interrogativamente inspirada, por exemplo) mas também à genialidade do texto inspirador, basilar para qualquer pessoa que se interesse por qualquer análise sobre os fundamentos da expressividade artística. Se Gilles Deleuze, no início do capítulo, arrisca uma correlação entre o discurso direto (na Literatura) e o a imagem subjetiva (no Cinema) e o discurso indireto e a imagem objetiva, ele logo traz à tona a "imagem semi-subjetiva", que, por não ter equivalente na percepção natural, é respaldada pelas investigações de Mikhail Bakhtin sobre o "discurso indireto livre", manifesto principalmente nos romances dostoievskianos. O mentor Caio Amado recitou alguns exemplos deste tipo de discurso, mas um chiste avaliativo verídico serve como demonstração mais efetiva: "Caio gostou tanto de AZUL É A COR MAIS QUENTE (2013) que se atreveu a elogiar empolgadamente o cineasta Abdellatif Kechiche. É o melhor diretor atual em atividade no cinema francês!". Apesar de rirmos bastante deste exemplo, o sistema heterogêneo no discurso está claro, em seu desequilíbrio intencional...
Seguindo com a sua explanação do texto pasoliniano, Gilles Deleuze exclama: "as imagens do [neurótico] ou da neurótica tornam-se assim visões do autor, que avança e reflete através dos fantasmas de seu herói. Será esse o motivo pelo qual o cinema moderno precisa tanto de personagens neuróticos, como portadores do discurso indireto livre ou da 'língua baixa' do mundo atual?". A resposta vem na prática, na reunião do sábado subseqüente, quando veremos em grupo o insigne O DESERTO VERMELHO/ O DILEMA DE UMA VIDA" (1964), obra-prima suprema do genial Michelangelo Antonioni.
Além do mestre italiano, Pier Paolo Pasolini inclui Jean-Luc Godard, Glauber Rocha e Bernardo Bertolucci como efetivos utilizadores da referida "subjetiva indireta livre". Yasujiro Ozu, de uma forma diferente, também faria uso dela, em sua placidez rítmica. Gilles Deleuze elenca o próprio 'corpus' pasoliniano e a extensa filmografia de Éric Rohmer enquanto complementes demonstradores, ao passo em que Wesley Pereira de Castro, servindo-se referencialmente de "Por um Cinema Impopular", outro texto contido em "Empirismo Herege", coletânea de escritos de Pier Paolo Pasolini, resgatou os nomes de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, cineastas que realizaram quase todos os seus filmes juntos. Por este motivo, ao final da leitura os presentes à reunião viram o curta-metragem RACHACHANDO (1982, vide foto), que não apenas traz em sua composição alguns dos elementos associados à imagem-percepção como assume-se como um supremo petardo brechtiano contra as imposições aprisionantes da dita pedagogia capitalista. O debate ao final da sessão foi obviamente benfazejo.

Aproveitando a presença dos amigos cinéfilos, o anfitrião Jadson Teles encetou uma homenagem ao magnânimo cineasta Alain Resnais, falecido em 01 de março de 2014, e, juntos, vimos VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA! (2012), que fez muitíssimo jus ao título ao revelar-se como uma extraordinária obra de vanguarda de seu revolucionário autor, obcecado pelas questões da memória, a ponto de converter o seu penúltimo filme num magistral testamento cinematográfico, indicativo de sua imortalidade. Na segunda-feira, dia 10 de março de 2014, pretenderemos dar continuidade a esta homenagem, vendo mais alguns filmes do autor que não tenham sido vistos por nenhum dos cecinéfilos. Interessados no convite, é só entrar em contato. De resto, até a semana que vem, com a jóia máxima antonioniana! 

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