"Com efeito, nossa percepção e nossa linguagem
distinguem corpos (substantivos), qualidades (adjetivos), e ações (verbos).
Mas, neste sentido preciso, as ações já substituíram o movimento pela idéia de
um lugar provisório para onde ele se dirige ou de um resultado que ele obtém; e
a qualidade substituiu o movimento pela idéia de um estado que persiste à
espera de que um outro ocupe o seu lugar; e o corpo substituiu o movimento pela
idéia de um sujeito que o executaria, ou de um objeto que o sofreria, de um
veículo que o portaria. Veremos que tais imagens se formam efetivamente no
universos (imagens-ação, imagens-afecção, imagens-percepção). Mas elas dependem
de novas condições, e evidentemente não podem aparecer por enquanto. Por
enquanto, só dispomos de movimentos, chamados imagens, para distingui-los de
tudo o que ainda não são"...
Esta passagem, localizada no início do antepenúltimo
parágrafo do primeiro segmento do quarto capítulo ("A imagem-movimento e
suas três variedades: segundo comentário de Bergson") de CINEMA 1: A
IMAGEM-MOVIMENTO, mais uma vez, dá a tônica que perpassa o genial livro de
Gilles Deleuze que estamos lendo. Não apenas o trecho destacado sintetiza (mais
uma vez!) os conceitos os conceito filosófico-cinematográficos basilares que
discutimos como reitera as precauções do autor acerca das revelações sobre a
imagem-tempo, só levadas a cabo no segundo livro do díptico.
Na reunião em pauta - conduzida por um inspiradíssimo Caio
Amado (que se atreveu até mesmo a explicar-nos brilhantemente rudimentos de
Física Quântica) e que contou com a presença de novos integrantes (Robson
Viana, muito mais que bem-vindo à trupe!) - além de discutirmos o trecho
destacado, lemos com atenção o referido segmento, prestando atenção ao
confronto entre materialismo e idealismo que o autor expõe a partir da
percepção de uma crise da psicologia, ou seja, a constatação de que não era
mais possível situar as imagens (qualitativas e inextensas) na consciência e os
movimentos (extensos e quantitativos) unicamente no espaço. Contrapondo Edmund
Husserl (que afirmava que "toda consciência é consciência de alguma
coisa") e Henri Bergson (que alegava que "toda consciência é alguma
coisa"), Gilles Deleuze atesta a oposição radical entre este último e a
fenomenologia, posto que ele se utilizava do cinema enquanto aliado ambíguo
para explicar como, de repente, os movimentos produziam imagens, e a imagem
produzia movimento...
Empolgados com o debate, o anfitrião Diogo Velasco e Jadson
Teles aproveitaram as deixas filosóficas do autor para introduzirem questões
mui pertinentes que atrelam-se às suas apaixonadas pesquisas acadêmicas
particulares, que associam o plano de imanência cinematográfico a um conjunto
de imagens-movimento, a uma coleção de figuras de luz, ou a uma série de blocos
de espaço-tempo. Curioso acerca das propriedades da imagem-pulsão, mencionada
em destaque pelo autor, mas situada numa posição transitiva em relação à tríade
derivada da imagem-movimento, Wesley Pereira de Castro perguntou aos presentes
onde se situaria o cinema peculiar de David Lynch, o que justifica o fotograma
de CORAÇÃO SELVAGEM (1990) que emoldura esta relatoria. As respostas e novas
questões contidas no fascinante livro-base continuarão nas aguardadas reuniões
seguintes... Que venham!

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