segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 07

"Com efeito, nossa percepção e nossa linguagem distinguem corpos (substantivos), qualidades (adjetivos), e ações (verbos). Mas, neste sentido preciso, as ações já substituíram o movimento pela idéia de um lugar provisório para onde ele se dirige ou de um resultado que ele obtém; e a qualidade substituiu o movimento pela idéia de um estado que persiste à espera de que um outro ocupe o seu lugar; e o corpo substituiu o movimento pela idéia de um sujeito que o executaria, ou de um objeto que o sofreria, de um veículo que o portaria. Veremos que tais imagens se formam efetivamente no universos (imagens-ação, imagens-afecção, imagens-percepção). Mas elas dependem de novas condições, e evidentemente não podem aparecer por enquanto. Por enquanto, só dispomos de movimentos, chamados imagens, para distingui-los de tudo o que ainda não são"...
Esta passagem, localizada no início do antepenúltimo parágrafo do primeiro segmento do quarto capítulo ("A imagem-movimento e suas três variedades: segundo comentário de Bergson") de CINEMA 1: A IMAGEM-MOVIMENTO, mais uma vez, dá a tônica que perpassa o genial livro de Gilles Deleuze que estamos lendo. Não apenas o trecho destacado sintetiza (mais uma vez!) os conceitos os conceito filosófico-cinematográficos basilares que discutimos como reitera as precauções do autor acerca das revelações sobre a imagem-tempo, só levadas a cabo no segundo livro do díptico.

Na reunião em pauta - conduzida por um inspiradíssimo Caio Amado (que se atreveu até mesmo a explicar-nos brilhantemente rudimentos de Física Quântica) e que contou com a presença de novos integrantes (Robson Viana, muito mais que bem-vindo à trupe!) - além de discutirmos o trecho destacado, lemos com atenção o referido segmento, prestando atenção ao confronto entre materialismo e idealismo que o autor expõe a partir da percepção de uma crise da psicologia, ou seja, a constatação de que não era mais possível situar as imagens (qualitativas e inextensas) na consciência e os movimentos (extensos e quantitativos) unicamente no espaço. Contrapondo Edmund Husserl (que afirmava que "toda consciência é consciência de alguma coisa") e Henri Bergson (que alegava que "toda consciência é alguma coisa"), Gilles Deleuze atesta a oposição radical entre este último e a fenomenologia, posto que ele se utilizava do cinema enquanto aliado ambíguo para explicar como, de repente, os movimentos produziam imagens, e a imagem produzia movimento...




Empolgados com o debate, o anfitrião Diogo Velasco e Jadson Teles aproveitaram as deixas filosóficas do autor para introduzirem questões mui pertinentes que atrelam-se às suas apaixonadas pesquisas acadêmicas particulares, que associam o plano de imanência cinematográfico a um conjunto de imagens-movimento, a uma coleção de figuras de luz, ou a uma série de blocos de espaço-tempo. Curioso acerca das propriedades da imagem-pulsão, mencionada em destaque pelo autor, mas situada numa posição transitiva em relação à tríade derivada da imagem-movimento, Wesley Pereira de Castro perguntou aos presentes onde se situaria o cinema peculiar de David Lynch, o que justifica o fotograma de CORAÇÃO SELVAGEM (1990) que emoldura esta relatoria. As respostas e novas questões contidas no fascinante livro-base continuarão nas aguardadas reuniões seguintes... Que venham!

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