segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 26

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 26 DE JULHO DE 2014: “Para a maioria dos críticos, ensaístas, cineastas, O MARTÍRIO DE JOANA D’ARC (1928) é o maior filme de Carl Theodor Dreyer, também um dos maiores de toda a história do cinema”, comenta o articulista Carlos Fonseca em seu texto sobre “o cineasta da vida interior”, publicado na 11ª edição de Filme Cultura, datada de novembro de 1968, poucos meses após a morte do diretor, ocorrida em 20 de março de 1968, aos sessenta e nove anos de idade.
Segundo o mesmo articulista, a obra deste cineasta dinamarquês “está, quase de uma ponta a outra, marcada por constantes da alma. O que importa em um filme seu não é a beleza objetiva das imagens, mas a beleza da alma”. Foi o que constatamos na sessão do referido filme, nesta tarde de sábado, em casa de Iara Chagas. O mentor Caio Amado, entusiasmado, apressou-se em dizer que, “desde que nós voltamos a nos reunir, este é o melhor filme que nós vimos em conjunto”. Não é um exagero: de fato, o filme é uma obra-prima insigne, que fez com que os cecinéfilos presentes à sessão experimentassem um estado de graça similar àquele vivenciado pela torturada protagonista.
François Truffaut, que levava à frente a antonomásia de “o cineasta da brancura”, concedida por seu patrono André Bazin em relação ao cineasta dinamarquês ora comentado, afirmava que, na filmografia dreyeriana, “a religiosidade dos temas escolhidos nos iludiu e não percebemos muito bem a violência subterrânea de sua obra e todos os dilaceramentos que formam sua engrenagem”, visto que tal diretor “apóia-se na sinceridade de seus personagens, cujas convicções são freqüentemente mostradas em violenta oposição”.
Ao filósofo Gilles Deleuze, de que nos servimos como texto-base, o que interessa é a exploração dos primeiros planos faciais como portadores supremos da imagem-afecção. O MARTÍRIO DE JOANA D’ARC, inclusive, é descrito como “o filme afetivo por excelência”, numa expressão que será estendida no sétimo capítulo de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”, “A Imagem-Afecção: qualidades, potencias, espaços quaisquer”, que leremos muito em breve. Antes disso, mergulharemos numa mini-maratona com os filmes deste cineasta, de maneira que, no sábado seguinte, 02 de agosto de 2014, veremos – novamente em residência de Jadson Teles – DIAS DE IRA (1943), demoradamente elogiado por André Bazin como um dos baluartes do cinema moderno, por causa do uso acertado da profundidade de campo, entre outros recursos expressivos que fazem evoluir a linguagem cinematográfica. Vale a pena acrescentar, neste sentido, que Caio disponibilizou vários filmes dreyerianos num ‘pendrive’, a fim de que, quem tenha vontade de avançar na obra deste gênio incontestável do cinema mundial, possa compartilhar efusivamente as impressões acerca de sua extrema coerência filmográfica.
Por fim, uma explicação sumamente afetiva: um traço que se pretende comum nas relatorias das reuniões ordinárias de nosso grupo é a recuperação de falas e/ou comentários dos presentes, mas, na situação em pauta, o relator ora responsável por esse texto encontrava-se num estágio tão avançado de torpor espectatorial que, dopado pelo transe – tanto cinematográfico quanto propriamente religioso – ousa pedir desculpas por esta displicência e solicitar que os demais se manifestem acerca do que sentiram vendo o filme. De minha parte, continuo deslumbrado: tal qual disse o Carlos Fonseca, citando Moniz Vianna, acerca da protagonista de O MARTÍRIO DE JOANA D’ARC, no texto susomencionado, “não resta mais nada da face de [Marie] Falconetti, de sua personalidade, ela não existe senão por sua arte, que a faz através dos séculos uma evolução mágica de Jeanne d’Arc. Houve muitas Joanas no cinema – antes e depois da grande ou da única... Nenhuma sobrevive. Mas a Jeanne d’Arc de Dreyer está mais viva do que nunca. Falconetti, sim, é uma santa”. 

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