segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RELATÓRIO 19

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 24 DE MAIO DE 2014: “Suponha a visão do santo e do artista como uma capacidade ampliada de ver... vidência. Deixe a assim chamada alucinação penetrar no reino da percepção; não importa que a humanidade encontre sempre uma terminologia depreciativa para tudo aquilo que não parece ser imediatamente útil. Aceita as visões oníricas, devaneios ou sonhos, como aceitaria as assim chamadas cenas reais. Dê espaço até para a percepção real das abstrações que se movem intensamente quando pressionamos as pálpebras fechadas. Lembre-se, você não é afetado apenas pelos fenômenos visuais de que tem consciência, procure sondar em profundidade todas as compreensões visuais. Mesmo que atualmente o desenvolvimento de uma compreensão visual esteja praticamente abandonado, não há razão nenhuma para que o olho de nossa mente fique amortecido logo após a infância”.
Eis o que apregoa veemente Stan Brakhage (1933-2003) no manifesto “Metáforas da Visão”, publicado em 1963. No referido manifesto, este radical cineasta defende a ausência de tutelas limitadoras da nossa percepção visual, defendendo um modo de enxergar o mundo similar ao de um bebê. Por isso, seus filmes abdicam do acompanhamento sonoro: o que importa é a visão. Entretanto, a cinematografia brakhageana não prescinde da montagem. E é precisamente neste aspecto que ele interessa à categorização final da imagem-percepção deleuzeana: por causa da “montagem piscante”, do predomínio do fotograma enquanto elemento genético do cinema.
A fim de prestarmos atenção a estas alegações, vimos, em seguida, três maravilhosos filmes de Stan Brakhage: os magníficos curtas-metragens WEDLOCK HOUSE: AN INTERCOURSE (1959 – vide fotograma à esquerda), em que ele faz sexo com sua esposa Jane Collum, em negativo, e WINDOW WATER BABY MOVING (1962), que fez alguns dos cecinéfilos fecharem os olhos, por causa das cenas que mostram um parto; e o longa-metragem DOG STAR MAN (1964), projeto central na carreira do cineasta, que apresenta quase 80 minutos de imagens superpostas e desprovidas de sons, enquanto um arremedo teleológico de narrativa mostra o próprio cineasta escalando uma montanha, ao lado de um cão. Temas recorrentes da obra de Stan Brakhage: o nascimento, o sexo, a morte e a busca de Deus.
Apesar de ótimo, DOG STAR MAN extenuou alguns dos cecinéfilos, por causa de sua configuração fílmica mui peculiar. Yuri Ferreira, entretanto, encetou uma comparação magistral, devidamente aplaudida, acerca do que ele sentiu durante a sessão: “é bem melhor que [tele]novela!” (risos).
Antes, porém, que mergulhássemos com fervor na genialidade brakhageana, Wesley Pereira de Castro apresentou o seu esquema de introdução ao ‘underground’ norte-americano, subdivido em suas facetas geométrica e sumamente abstrata. A audiência do curta-metragem AN OPTICAL POEM (1938, de Oskar Fischinger) foi essencial na exposição dos elementos-chave que influenciariam a filmografia do escocês radicado no Canadá Norman McLaren (1914-1987), de quem vimos: BLINKITY BLANK (1955), deveras apreciado por François Truffaut (que o considera um criativo “balé erótico por meio do encontro de elementos machos com elementos fêmeos”) e por Manoela Veloso Passos, mas considerado mediano por Wesley e pelo anfitrião Jadson Teles, que o consideraram saturado e infantil, respectivamente; RYTHMETIC (1956, co-dirigido por Evelyn Lambart – vide fotograma à direita), que desencadeou gargalhadas na platéia, principalmente em Caio Amado, por causa da genialidade chistosa envolvendo a disposição de números espirituosos sobre uma tela azul; MOSAICO (1965, também co-dirigido por Evelyn Lambart), característico da fase estritamente geométrica do diretor; e SYNCHROMY (1971), considerado por Wesley a obra-prima do diretor, visto que combina suas diversas fases sob a forma de uma tese-mor sobre as relações possíveis entre imagens, cores, sons e velocidades. Foi uma sessão incrível: aprendemos bastante sobre a magia erótica do cinema enquanto “história da possessão do medo através de sua percepção”. Citando novamente Stan Brakhage, “a eliminação de todo o medo está na visão”, o que, coincidentemente, talvez também seja evocado nos trabalhos de videoarte pesquisados pelo convidado carioca que foi trazido por Manoela para esta sessão insigne!
Encerrado, portanto, o capítulo sobre “A Imagem-Percepção”, na semana seguinte, o mentor Caio Amado apresentará os dois primeiros segmentos do capítulo 6 do livro-base deleuzeano: “A Imagem-Afecção: rosto e primeiro plano”, no qual serão requisitados os cineastas melodramáticos do cinema mudo, principalmente D. W. Griffith e alguns que advieram do cinema alemão (G. W. Pabst e Josef Von Sternberg à frente), além de menções pontuais a Sergei Eisenstein e F. W. Murnau. Ainda temos muito a desbravar, portanto: até a próxima semana!


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