RELATORIA
DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 23 DE AGOSTO DE 2014: “Enquanto houver rostos, eles
giram como planetas em torno do astro fixo e, girando, não param de se afastar.
Uma pequeníssima mudança de direção do rosto faz variar a relação de suas
partes duras e de suas partes macias, modificando assim o afeto. Mesmo um rosto
sozinho tem um coeficiente de afastamento e de volta. É através do
voltar/afastar-se que o rosto exprime o seu afeto, seu crescimento e seu
decréscimo, enquanto o apagar ultrapassa o limiar de decréscimo, mergulha o
afeto no vazio e faz o rosto perder suas faces”.
Esta explicação deleuzeana deu o tom da reunião
deste sábado, muitíssimo impregnada de arcabouço filosófico, no sentido de que
os presentes, já tendo compreendido os fundamentos cinematográficos da
imagem-afecção, buscaram situá-los numa perspectiva diacrônica coadunada à
institucionalização do cristianismo, assumido como tema primordial dos escritos
kierkegaardianos que, segundo alegado por Jadson Teles, foi bem
apreendido (e disseminado textualmente) por Gilles Deleuze.
O clássico-mor de G. W. Pabst e as obras
dreyerianas foram detidamente mencionadas, mas alguns capítulos da vasta
filmografia bergmaniana destacaram-se, a ponto de o mentor Caio Amado achar
imprescindível que vejamos em grupo ao menos um quarteto de obras deste insigne
cineasta sueco. Assim sendo, no sábado seguinte, 30 de agosto de 2014, veremos
juntos o esplendoroso MONIKA E O DESEJO (1952, de Ingmar Bergman), que será
apresentado por Robson Viana e
cuja exibição terá como mote a detecção do estádio estético na concepção da
protagonista, conforme a gênese kierkegaardiana do conceito de imagem-afecção.
Numa perspectiva demasiado geral, o que se concluiu
da leitura coletiva do primeiro segmento do sétimo capítulo de “Cinema 1: A
Imagem-Movimento”, “A Imagem-Afecção: qualidades, potências, espaços
quaisquer”, foi que as qualidades-potências antecipam os acontecimentos, que,
consecutivamente, atualizam e modificam os estados de coisas. Segundo o autor,
estas qualidades-potências “dizem respeito às pessoas e aos objetos, ao estado
de coisas bem como às suas causas. Mas são efeitos muito especiais: todos
juntos só remetem a si mesmos, e constituem o expressado do estado de coisas,
enquanto as causas, por sua vez, só remetem a si mesmas, constituindo o estado
de coisas”. E, neste sentido, a distinção entre os dois estados elementares das
qualidades-potências são requeridos: aquele que é atualizado num estado de
coisas individuado e nas conexões reais (e que engendra os planos médios da
imagem-ação); e aquele que é expressado por si mesmo, relacionado aos primeiros
planos da imagem-afecção.
A título de ilustração extensiva, Wesley Pereira de Castro acrescentou
um depoimento de François Truffaut, que, ao comentar a sua obra-prima A
HISTÓRIA DE ADÉLE H. (1975 – vide fotograma), afirma que, do meio para o final,
“o filme foi-se tornando cada vez mais fechado, claustrofóbico, a história de
um rosto”, um exemplo que, num futuro próximo, pode muito bem ser reaproveitado
pelos cecinéfilos. Sigamos em debate! (WPC>)

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