sábado, 25 de outubro de 2014

RELATÓRIO 30

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 23 DE AGOSTO DE 2014: “Enquanto houver rostos, eles giram como planetas em torno do astro fixo e, girando, não param de se afastar. Uma pequeníssima mudança de direção do rosto faz variar a relação de suas partes duras e de suas partes macias, modificando assim o afeto. Mesmo um rosto sozinho tem um coeficiente de afastamento e de volta. É através do voltar/afastar-se que o rosto exprime o seu afeto, seu crescimento e seu decréscimo, enquanto o apagar ultrapassa o limiar de decréscimo, mergulha o afeto no vazio e faz o rosto perder suas faces”.
Esta explicação deleuzeana deu o tom da reunião deste sábado, muitíssimo impregnada de arcabouço filosófico, no sentido de que os presentes, já tendo compreendido os fundamentos cinematográficos da imagem-afecção, buscaram situá-los numa perspectiva diacrônica coadunada à institucionalização do cristianismo, assumido como tema primordial dos escritos kierkegaardianos que, segundo alegado por Jadson Teles, foi bem apreendido (e disseminado textualmente) por Gilles Deleuze.
O clássico-mor de G. W. Pabst e as obras dreyerianas foram detidamente mencionadas, mas alguns capítulos da vasta filmografia bergmaniana destacaram-se, a ponto de o mentor Caio Amado achar imprescindível que vejamos em grupo ao menos um quarteto de obras deste insigne cineasta sueco. Assim sendo, no sábado seguinte, 30 de agosto de 2014, veremos juntos o esplendoroso MONIKA E O DESEJO (1952, de Ingmar Bergman), que será apresentado por Robson Viana e cuja exibição terá como mote a detecção do estádio estético na concepção da protagonista, conforme a gênese kierkegaardiana do conceito de imagem-afecção.
Numa perspectiva demasiado geral, o que se concluiu da leitura coletiva do primeiro segmento do sétimo capítulo de “Cinema 1: A Imagem-Movimento”, “A Imagem-Afecção: qualidades, potências, espaços quaisquer”, foi que as qualidades-potências antecipam os acontecimentos, que, consecutivamente, atualizam e modificam os estados de coisas. Segundo o autor, estas qualidades-potências “dizem respeito às pessoas e aos objetos, ao estado de coisas bem como às suas causas. Mas são efeitos muito especiais: todos juntos só remetem a si mesmos, e constituem o expressado do estado de coisas, enquanto as causas, por sua vez, só remetem a si mesmas, constituindo o estado de coisas”. E, neste sentido, a distinção entre os dois estados elementares das qualidades-potências são requeridos: aquele que é atualizado num estado de coisas individuado e nas conexões reais (e que engendra os planos médios da imagem-ação); e aquele que é expressado por si mesmo, relacionado aos primeiros planos da imagem-afecção.

A título de ilustração extensiva, Wesley Pereira de Castro acrescentou um depoimento de François Truffaut, que, ao comentar a sua obra-prima A HISTÓRIA DE ADÉLE H. (1975 – vide fotograma), afirma que, do meio para o final, “o filme foi-se tornando cada vez mais fechado, claustrofóbico, a história de um rosto”, um exemplo que, num futuro próximo, pode muito bem ser reaproveitado pelos cecinéfilos. Sigamos em debate! (WPC>)

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