RELATORIA
DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 14 DE SETEMBRO DE 2014: “Podemos discutir o que
[Ingmar] Bergman diz, mas, se o problema da existência de Deus (e de seu
silêncio) não interessa a muitos, o problema da vida em si toca a todos, sem
falar da ameaça atômica e da guerra, das dificuldades do casal. (...) À fé
revelada, Bergman opõe a fé privada, a fé onde a Igreja logicamente não toma
parte. Além dos mistérios, dos dogmas e da liturgia, além da reflexão
cotidiana, além da psicanálise, a fé não pode ser mais do que a fé de cada um.
Crer é desejar crer. Todo o resto são palavras das Igrejas, nada mais que a
hipocrisia, o logro. O abuso da confiança” (Carlos Armando – “O Planeta
Bergman” – página 228).
No insigne LUZ DE INVERNO (1962), filme de Ingmar
Bergman comungado pelos cecinéfilos nesta tarde de sábado, o que salta aos
olhos é uma crítica severa à burocratização da religiosidade. Se é devidamente
sabido que a cinematografia bergmaniana é permeada por questionamentos intensos
acerca da existência de Deus, aqui estes são substituídos pelo questionamento
acerca da própria crença em tal existência sublime. Foi isso que Wesley Pereira de Castro,
tão logo terminou a sessão, apressou-se em notar, tomando como suportes
discursivos as reminiscências de sua infância acerca da mecanicidade das
atividades paroquiais, como a organização das missas e a execução dos hinos,
realizadas por religiosos terceirizados e, como tal, isentos de demonstrarem ou
questionarem a própria fé. Victor Cardozo aproveitou
o ensejo e, também imergindo em reminiscências infantis, acrescentou que o que
mais lhe incomodava em sua infância freqüentadora de igrejas era a
obrigatoriedade dos encontros religiosos em determinados horários, como se
apenas aqueles instantes fossem autorizados para a demonstração dos fervores
crentes da congregação. O mentor Caio Amado acrescentou também algumas
observações neste sentido e, constatando que as práticas luteranas mostradas no
filme assemelham-se deveras aos rituais católicos levados a cabo no Brasil, deu
a deixa para que Jadson apresentasse as suas sólidas impressões
kierkegaardianas sobre a obra...
Atendendo à convocação, Jadson Teles leu
alguns excertos primorosos do filósofo dinamarquês acerca de questões
relacionadas à vontade e necessidade de ter fé – excertos estes que, por não
serem devidamente recordados por este relator, talvez possam ser reapresentados
nos comentários, a fim de manter ativa a relevante discussão que se instalou
enquanto discutíamos o filme – e, dentre as observações que destacou,
distinguiu as noções de angústia e desespero com base no que os personagens
sentiam. Segundo ele, o pescador Jonas (interpretado por Max Von Sydow, e de
quem Jadson fez questão de enfatizar a sua origem onomástica bíblica) seria o
personagem mais corajoso do filme, visto que ele conseguiu efetivar o píncaro
de seu desespero, o suicídio. Os demais personagens seriam atormentados pela
angústia, mas permitiam que esta concorresse com as atribulações cotidianas
e/ou dores fisiológicas, o que, para o filósofo kierkegaardiano, talvez
equiparasse a uma condição de pusilanimidade existencial. Sendo assim, o
pretexto noticioso (a possível utilização de armas nucleares pela China) que
faz com que o personagem Jonas externe o seu desespero lancinante seria
irrelevante, visto que aquilo que o atormenta manifestava-se independentemente
de condições mundanas objetivadas. O ato extremo de atirar na própria cabeça
com o rifle e abandonar os três filhos e a esposa grávida foi, portanto,
analisado em suas implicações pelo grupo, que não pôde esquivar-se de
comparações pessoais com os acabrunhados personagens do filme.
Para além dos inúmeros méritos técnicos do filme –
que, conforme muitos notaram, assemelha-se deveras ao rigor dreyeriano – Wesley
insistiu em propor um debate vindouro entre as questões litúrgicas que abundam
neste filme e aquelas que são apresentadas nos clássicos DIÁRIO DE UM PÁROCO DE
ALDEIA (1951, de Robert Bresson) e NAZARÍN (1959, de Luís Buñuel), em que
líderes religiosos enfrentam situações similares de inadequação
estrutural/societal entre a fé (ou falta de fé) em Deus e a dificuldade na
aplicação terrena de atos religiosos supraclericais, o que traz à tona a
cobrança das “obras do amor”, para utilizar novamente uma expressão
kierkegaardiana assaz repetida pelos presentes ao debate. A utilização
renitente de ‘close-ups’ de rostos nos filmes citados é marcante, em seus
clímaxes gozosos marcados pela imagem-afecção deleuzeana. Citando o texto de
Geoffrey Andrew, em seu artigo sobre o filme bergmaniano para o guia “1001
Filmes Para Ver Antes de Morrer”: “LUZ DE INVERNO é Bergman em seu momento mais
intenso. A narrativa é mínima, tensa, objetiva. O elenco é fotografado em magníficos
e bem-iluminados ‘close-ups’ de Sven Nykvist, desenvolvendo atuações contidas,
de grande sutileza e poder. Os cenários e ambientações simples contribuem para
aumentar a aura de rigorosa austeridade. O filme é despido dos exíguos sinais
de esperança ou pelo menos da aceitação resignada que permeia os filmes
posteriores de Bergman. Ou seja, está longe de ser um relato otimista sobre a
experiência humana. Dito isto, a arte pura que impregna a tela é emocionante de
uma forma inesperada”.
Por fim, cabe retomar aqui o
magistral texto de François Truffaut, “Porque sou o Homem Mais Feliz do Mundo”,
redigido em 1969, em que, ao explicar o que sente concomitantemente enquanto
espectador, crítico e realizador de cinema serve-se da passagem final de LUZ DE
INVERNO para emoldurar permanentemente o seu belíssimo ponto de vista: “quando
pensamentos pessimistas me atravessam o espírito, tranqüilizo-me rememorando a
última seqüência de LUZ DE INVERNO, na qual vemos um padre que praticamente
perdeu fé celebrando uma missa em sua igreja completamente vazia. O filme
termina com este padre dizendo a missa para ninguém, mas interpreto esta cena
de outra forma, pensando: ‘sim, Bergman quer dizer que os espectadores no mundo
inteiro estão se desligando do cinema, mas acha que devemos continuar mesmo
assim a fazer filmes, ainda que suspeitemos e ainda que não haja ninguém no
cinema’. Foi como interpretei a cena, ignorando completamente se o pensamento
de Bergman foi este. Em todo caso, achei interessante ver neste final uma parábola
sobre a crise do cinema no mundo”. Oficialmente, percebemos que a intenção
kierkegaardiana de Ingmar Bergman com este desfecho pungente não foi esta
contida na exortação truffautiana, mas a sua corruptela emocionada é
absolutamente válida. Por isso, o CECINE/UFS continua! Na semana que vem,
veremos, então, PERSONA – QUANDO DUAS MULHERES PECAM (1966), apresentado por
este que vos escreve. E o mundo é bom, ainda que (ou justamente porque)
atravessado pela angústia! (WPC>)

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