sábado, 25 de outubro de 2014

RELATÓRIO 33

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 14 DE SETEMBRO DE 2014: “Podemos discutir o que [Ingmar] Bergman diz, mas, se o problema da existência de Deus (e de seu silêncio) não interessa a muitos, o problema da vida em si toca a todos, sem falar da ameaça atômica e da guerra, das dificuldades do casal. (...) À fé revelada, Bergman opõe a fé privada, a fé onde a Igreja logicamente não toma parte. Além dos mistérios, dos dogmas e da liturgia, além da reflexão cotidiana, além da psicanálise, a fé não pode ser mais do que a fé de cada um. Crer é desejar crer. Todo o resto são palavras das Igrejas, nada mais que a hipocrisia, o logro. O abuso da confiança” (Carlos Armando – “O Planeta Bergman” – página 228).
No insigne LUZ DE INVERNO (1962), filme de Ingmar Bergman comungado pelos cecinéfilos nesta tarde de sábado, o que salta aos olhos é uma crítica severa à burocratização da religiosidade. Se é devidamente sabido que a cinematografia bergmaniana é permeada por questionamentos intensos acerca da existência de Deus, aqui estes são substituídos pelo questionamento acerca da própria crença em tal existência sublime. Foi isso que Wesley Pereira de Castro, tão logo terminou a sessão, apressou-se em notar, tomando como suportes discursivos as reminiscências de sua infância acerca da mecanicidade das atividades paroquiais, como a organização das missas e a execução dos hinos, realizadas por religiosos terceirizados e, como tal, isentos de demonstrarem ou questionarem a própria fé. Victor Cardozo aproveitou o ensejo e, também imergindo em reminiscências infantis, acrescentou que o que mais lhe incomodava em sua infância freqüentadora de igrejas era a obrigatoriedade dos encontros religiosos em determinados horários, como se apenas aqueles instantes fossem autorizados para a demonstração dos fervores crentes da congregação. O mentor Caio Amado acrescentou também algumas observações neste sentido e, constatando que as práticas luteranas mostradas no filme assemelham-se deveras aos rituais católicos levados a cabo no Brasil, deu a deixa para que Jadson apresentasse as suas sólidas impressões kierkegaardianas sobre a obra...
Atendendo à convocação, Jadson Teles leu alguns excertos primorosos do filósofo dinamarquês acerca de questões relacionadas à vontade e necessidade de ter fé – excertos estes que, por não serem devidamente recordados por este relator, talvez possam ser reapresentados nos comentários, a fim de manter ativa a relevante discussão que se instalou enquanto discutíamos o filme – e, dentre as observações que destacou, distinguiu as noções de angústia e desespero com base no que os personagens sentiam. Segundo ele, o pescador Jonas (interpretado por Max Von Sydow, e de quem Jadson fez questão de enfatizar a sua origem onomástica bíblica) seria o personagem mais corajoso do filme, visto que ele conseguiu efetivar o píncaro de seu desespero, o suicídio. Os demais personagens seriam atormentados pela angústia, mas permitiam que esta concorresse com as atribulações cotidianas e/ou dores fisiológicas, o que, para o filósofo kierkegaardiano, talvez equiparasse a uma condição de pusilanimidade existencial. Sendo assim, o pretexto noticioso (a possível utilização de armas nucleares pela China) que faz com que o personagem Jonas externe o seu desespero lancinante seria irrelevante, visto que aquilo que o atormenta manifestava-se independentemente de condições mundanas objetivadas. O ato extremo de atirar na própria cabeça com o rifle e abandonar os três filhos e a esposa grávida foi, portanto, analisado em suas implicações pelo grupo, que não pôde esquivar-se de comparações pessoais com os acabrunhados personagens do filme.
Para além dos inúmeros méritos técnicos do filme – que, conforme muitos notaram, assemelha-se deveras ao rigor dreyeriano – Wesley insistiu em propor um debate vindouro entre as questões litúrgicas que abundam neste filme e aquelas que são apresentadas nos clássicos DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA (1951, de Robert Bresson) e NAZARÍN (1959, de Luís Buñuel), em que líderes religiosos enfrentam situações similares de inadequação estrutural/societal entre a fé (ou falta de fé) em Deus e a dificuldade na aplicação terrena de atos religiosos supraclericais, o que traz à tona a cobrança das “obras do amor”, para utilizar novamente uma expressão kierkegaardiana assaz repetida pelos presentes ao debate. A utilização renitente de ‘close-ups’ de rostos nos filmes citados é marcante, em seus clímaxes gozosos marcados pela imagem-afecção deleuzeana. Citando o texto de Geoffrey Andrew, em seu artigo sobre o filme bergmaniano para o guia “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”: “LUZ DE INVERNO é Bergman em seu momento mais intenso. A narrativa é mínima, tensa, objetiva. O elenco é fotografado em magníficos e bem-iluminados ‘close-ups’ de Sven Nykvist, desenvolvendo atuações contidas, de grande sutileza e poder. Os cenários e ambientações simples contribuem para aumentar a aura de rigorosa austeridade. O filme é despido dos exíguos sinais de esperança ou pelo menos da aceitação resignada que permeia os filmes posteriores de Bergman. Ou seja, está longe de ser um relato otimista sobre a experiência humana. Dito isto, a arte pura que impregna a tela é emocionante de uma forma inesperada”.

Por fim, cabe retomar aqui o magistral texto de François Truffaut, “Porque sou o Homem Mais Feliz do Mundo”, redigido em 1969, em que, ao explicar o que sente concomitantemente enquanto espectador, crítico e realizador de cinema serve-se da passagem final de LUZ DE INVERNO para emoldurar permanentemente o seu belíssimo ponto de vista: “quando pensamentos pessimistas me atravessam o espírito, tranqüilizo-me rememorando a última seqüência de LUZ DE INVERNO, na qual vemos um padre que praticamente perdeu fé celebrando uma missa em sua igreja completamente vazia. O filme termina com este padre dizendo a missa para ninguém, mas interpreto esta cena de outra forma, pensando: ‘sim, Bergman quer dizer que os espectadores no mundo inteiro estão se desligando do cinema, mas acha que devemos continuar mesmo assim a fazer filmes, ainda que suspeitemos e ainda que não haja ninguém no cinema’. Foi como interpretei a cena, ignorando completamente se o pensamento de Bergman foi este. Em todo caso, achei interessante ver neste final uma parábola sobre a crise do cinema no mundo”. Oficialmente, percebemos que a intenção kierkegaardiana de Ingmar Bergman com este desfecho pungente não foi esta contida na exortação truffautiana, mas a sua corruptela emocionada é absolutamente válida. Por isso, o CECINE/UFS continua! Na semana que vem, veremos, então, PERSONA – QUANDO DUAS MULHERES PECAM (1966), apresentado por este que vos escreve. E o mundo é bom, ainda que (ou justamente porque) atravessado pela angústia! (WPC>)

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