sábado, 25 de outubro de 2014

RELATÓRIO 38

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 18 DE OUTUBRO DE 2014: Segundo André Bazin, em seu magistral ensaio sobre a estilística de Robert Bresson, publicado na terceira edição dos Cahiers du Cinéma, em junho de 1951, DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA (1950), dentre seus inúmeros méritos artísticos, “é ainda outra coisa. Sua dialética da fidelidade e da criação se reduz, em última análise, a uma dialética entre o cinema e a literatura. Já não se trata de traduzir, por mais fiel, mais inteligentemente que seja, tampouco de se inspirar livremente, com um respeito apaixonado, tendo em vista um filme que copie a obra, e sim de construir sobre o romance, através do cinema, uma obra secundária. Não é um filme ‘comparável’ ao romance, ou ‘digno’ dele, mas um ser estético novo que é como que o romance multiplicado pelo cinema”.
No ensaio em pauta, a originalidade surpreendente da adaptação cinematográfica da obra-prima homônima de Georges Bernanos lançada em 1936 é esmiuçada pelo crítico, que também detecta aprioristicamente a genialidade do modo como o diretor conduz as interpretações em ‘recto tono’, forçando os seus atores (não-profissionais) a declamarem o texto de forma propositalmente monótona, numa opção estética actancial que se tornará ainda mais evidente em seus filmes posteriores, ainda mais elaborados idiossincraticamente.
Como, dos presentes à sessão, apenas o mentor Caio Amado e Wesley Pereira de Castro tinham lido o livro que deu origem ao filme (e anteciparam observações pontuais acerca daquilo que é oportunamente suprimido na versão cinematográfica), questões especificamente fílmicas vieram à tona, ainda que a conhecida dicotomia estabelecida pelo diretor entre cinema X “cinematógrafo” tenha vindo à tona. Em sua apresentação inicial, Wesley, citando um dossiê sobre o diretor publicado no ‘site’ australiano Senses of Cinema, adiantou que três eram as principais influências biográficas na obra bressoniana: a sua adesão ao jansenismo, corrente cristã que adota a noção de ‘Deus absconditus’ (“Deus escondido”), segundo o que apregoa o filósofo Blaise Pascal (1623-1662); a sua experiência pessoal como prisioneiro de guerra, que interferiu na sua obsessão pelos temas de confinamento; e o seu desejo juvenil de ser pintor, que culmina em sua austeridade na composição dos enquadramentos. No filme visto neste sábado, estas influências ainda estão se definindo como relacionadas a uma das mais autorais filmografias de todos os tempos, mas tais elementos chamaram a atenção dos espectadores, que os comentaram entusiasticamente após a sessão.
Tão logo o filme se encerrou, e a luz foi acesa bruscamente (não obstante o espaço em que os cecinéfilos estavam ser banhado pela intensa luminosidade da Graça), Daniela da Silva exclamou que o filme que vira “não era tão angustiante quanto as obras de Carl Theodor Dreyer”. Seguindo-se aos comentários religiosamente elogiosos de espectadores que aceitaram a crueldade auto-infligida do protagonista como componente essencial de prática da fé Jadson Teles à frente), Mauro Luciano adiantou que, no ‘corpus’ bressoniano, para além de sua irrevogável cristandade, há diversas manifestações diabólicas nas atitudes perversas dos seres humanos que rodeiam os personagens que dominam a perspectiva narrativa. Os comentários conseguintes fizeram com que Caio notasse que há duas espécies para-partidárias de apreciadores do filme: aqueles que imergem por completo em sua trama de redenção dorida Victor Cardozo, incluído, além de Jadson, Wesley,Anny Anjos e o neófito Alisson Castro); e aqueles que o analisam tecnicamente e de maneira um tanto distanciada (o próprio Caio, Mauro, e talvez Manoela Veloso Passos e Robson Viana). Discordâncias acerca desta classificação, que surjam no espaço destinado aos comentários (risos).
O debate confluiu para inúmeros questionamentos sobre a relação entre fé e o modernismo artístico, que levou Caio Amado a analisar idealmente o cristianismo como algo “que tem a função de devolver a nobreza aos pobres, já que a sociedade capitalista avilta esta condição”. Jadson, por sua vez, recorrendo ao seu enorme cabedal kierkegaardiano, destacou que, para este filósofo dinamarquês, “somente o indivíduo pode encontrar a Deus”, sendo a fé uma questão individualmente identitária. Comparações entre o estilo de Robert Bresson e diferentes artistas (do letão Sergei Eisenstein ao brasileiro Guimarães Rosa, passando por Martin Scorsese, Joaquim Pedro de Andrade e muitos outros cineastas e escritores, incluindo seguidores confessores do cineasta francês, como Paul Schrader, Maurice Pialat e Bruno Dumont) foram mencionadas, além de reiteradas recomendações para que o responsável por esta relatoria transladasse o máximo possível de tudo o que foi discutido pelo grupo. Caso isto não tenha ocorrido, que os adendos venham à tona, mais uma vez, na área destinada aos complementos, correções e comentários.

Continuando com a entrega bressoniana, que se instaurará em mais um punhado de semanas, no sábado seguinte, dia 25 de outubro de 2014, no apartamento de Caio Amado, veremos mais uma das obras-primas de Robert Bresson, PICKPOCKET (1959), com apresentação do próprio anfitrião, ansioso por estrear coletivamente o seu aparelho de TV recém-comprado. Retomado o ensaio baziniano, foi dito que o estilo bressoniano é atravessado pelo “paradoxo de um servilismo textual”, declaração que foi aceita como ponto pacífico pelo grupo, inebriado pelas imagens-afecção do filme. Ou assim pareceu. Pelo sim, pelo não, “que importa? Tudo é graça!”. O Cecine/UFS é a testemunha comunitária disto! (WPC>)

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