RELATORIA
DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 18 DE OUTUBRO DE 2014: Segundo André Bazin, em seu
magistral ensaio sobre a estilística de Robert Bresson, publicado na terceira
edição dos Cahiers du Cinéma, em junho de 1951, DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA
(1950), dentre seus inúmeros méritos artísticos, “é ainda outra coisa. Sua
dialética da fidelidade e da criação se reduz, em última análise, a uma
dialética entre o cinema e a literatura. Já não se trata de traduzir, por mais
fiel, mais inteligentemente que seja, tampouco de se inspirar livremente, com
um respeito apaixonado, tendo em vista um filme que copie a obra, e sim de
construir sobre o romance, através do cinema, uma obra secundária. Não é um
filme ‘comparável’ ao romance, ou ‘digno’ dele, mas um ser estético novo que é
como que o romance multiplicado pelo cinema”.
No ensaio em pauta, a originalidade surpreendente
da adaptação cinematográfica da obra-prima homônima de Georges Bernanos lançada
em 1936 é esmiuçada pelo crítico, que também detecta aprioristicamente a genialidade
do modo como o diretor conduz as interpretações em ‘recto tono’, forçando os
seus atores (não-profissionais) a declamarem o texto de forma propositalmente
monótona, numa opção estética actancial que se tornará ainda mais evidente em
seus filmes posteriores, ainda mais elaborados idiossincraticamente.
Como, dos presentes à sessão, apenas o mentor Caio
Amado e Wesley Pereira
de Castro tinham lido o livro que deu origem ao filme (e anteciparam
observações pontuais acerca daquilo que é oportunamente suprimido na versão
cinematográfica), questões especificamente fílmicas vieram à tona, ainda que a
conhecida dicotomia estabelecida pelo diretor entre cinema X “cinematógrafo”
tenha vindo à tona. Em sua apresentação inicial, Wesley, citando um dossiê
sobre o diretor publicado no ‘site’ australiano Senses of Cinema, adiantou que
três eram as principais influências biográficas na obra bressoniana: a sua
adesão ao jansenismo, corrente cristã que adota a noção de ‘Deus absconditus’
(“Deus escondido”), segundo o que apregoa o filósofo Blaise Pascal (1623-1662);
a sua experiência pessoal como prisioneiro de guerra, que interferiu na sua
obsessão pelos temas de confinamento; e o seu desejo juvenil de ser pintor, que
culmina em sua austeridade na composição dos enquadramentos. No filme visto
neste sábado, estas influências ainda estão se definindo como relacionadas a
uma das mais autorais filmografias de todos os tempos, mas tais elementos
chamaram a atenção dos espectadores, que os comentaram entusiasticamente após a
sessão.
Tão logo o filme se encerrou, e a luz foi acesa
bruscamente (não obstante o espaço em que os cecinéfilos estavam ser banhado
pela intensa luminosidade da Graça), Daniela da Silva exclamou
que o filme que vira “não era tão angustiante quanto as obras de Carl Theodor
Dreyer”. Seguindo-se aos comentários religiosamente elogiosos de espectadores
que aceitaram a crueldade auto-infligida do protagonista como componente
essencial de prática da fé Jadson Teles à
frente), Mauro Luciano adiantou
que, no ‘corpus’ bressoniano, para além de sua irrevogável cristandade, há
diversas manifestações diabólicas nas atitudes perversas dos seres humanos que
rodeiam os personagens que dominam a perspectiva narrativa. Os comentários
conseguintes fizeram com que Caio notasse que há duas espécies para-partidárias
de apreciadores do filme: aqueles que imergem por completo em sua trama de
redenção dorida Victor Cardozo,
incluído, além de Jadson, Wesley,Anny Anjos e
o neófito Alisson Castro);
e aqueles que o analisam tecnicamente e de maneira um tanto distanciada (o
próprio Caio, Mauro, e talvez Manoela Veloso
Passos e Robson Viana).
Discordâncias acerca desta classificação, que surjam no espaço destinado aos
comentários (risos).
O debate confluiu para inúmeros questionamentos sobre
a relação entre fé e o modernismo artístico, que levou Caio Amado a analisar
idealmente o cristianismo como algo “que tem a função de devolver a nobreza aos
pobres, já que a sociedade capitalista avilta esta condição”. Jadson, por sua
vez, recorrendo ao seu enorme cabedal kierkegaardiano, destacou que, para este
filósofo dinamarquês, “somente o indivíduo pode encontrar a Deus”, sendo a fé
uma questão individualmente identitária. Comparações entre o estilo de Robert
Bresson e diferentes artistas (do letão Sergei Eisenstein ao brasileiro
Guimarães Rosa, passando por Martin Scorsese, Joaquim Pedro de Andrade e muitos
outros cineastas e escritores, incluindo seguidores confessores do cineasta
francês, como Paul Schrader, Maurice Pialat e Bruno Dumont) foram mencionadas,
além de reiteradas recomendações para que o responsável por esta relatoria
transladasse o máximo possível de tudo o que foi discutido pelo grupo. Caso
isto não tenha ocorrido, que os adendos venham à tona, mais uma vez, na área
destinada aos complementos, correções e comentários.
Continuando com a entrega
bressoniana, que se instaurará em mais um punhado de semanas, no sábado
seguinte, dia 25 de outubro de 2014, no apartamento de Caio Amado, veremos mais
uma das obras-primas de Robert Bresson, PICKPOCKET (1959), com apresentação do
próprio anfitrião, ansioso por estrear coletivamente o seu aparelho de TV
recém-comprado. Retomado o ensaio baziniano, foi dito que o estilo bressoniano
é atravessado pelo “paradoxo de um servilismo textual”, declaração que foi
aceita como ponto pacífico pelo grupo, inebriado pelas imagens-afecção do
filme. Ou assim pareceu. Pelo sim, pelo não, “que importa? Tudo é graça!”. O
Cecine/UFS é a testemunha comunitária disto! (WPC>)

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