sábado, 25 de outubro de 2014

RELATÓRIO 36

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 04 DE OUTUBRO DE 2014, DIA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS: Se, por um lado, disse Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855), “o eu é a liberdade. Mas a liberdade é a dialética das duas categorias do possível e do necessário”, por outro, asseverou o mentor Caio Amado: “a loucura é um negócio muito louco. Como diria [Immanuel] Kant, é uma ‘proposição analítica’”. Entre um e outro pólo, o dinamarquês Lars Von Trier situa o seu genial OS IDIOTAS (1998), obra-prima autocrítica que foi vista em conjunto na reunião deste sábado e empolgou sobremaneira os cecinéfilos, que, para além de insatisfações eventuais com o pendor sumamente publicitário das obras atuais deste gênio, aplaudiram de pé as incríveis inovações formais e conteudísticas contidas neste exemplar egrégio do Manifesto Dogma ’95, não obstante driblar propositalmente alguns de seus mandamentos...
Conforme foi adicionado ao texto anterior da convocatória para a sessão, a inserção de trilha sonora não-diegética e os afastamentos espaço-temporais entre personagens e ações são rejeitados propositivamente, mas Lars Von Trier utiliza ambos os procedimentos de maneira absolutamente genial, para ficar apenas em dois exemplos imediatos que, nem de longe, maculam a filiação do diretor ao Manifesto. Pelo contrário, torna-o o representante supremo do mesmo, não sendo casual a identificação entre o cineasta e o personagem Stoffer (Jens Albinus) no filme, suposto idealizador do grupo de amigos que resolvem fingir-se de deficientes mentais para liberarem-se internamente e, ao mesmo tempo, irem de encontro às convenções pequeno-burguesas do capitalismo hodierno.
Ao final da sessão, Wesley Pereira de CastroJadson TelesDaniela da SilvaManoela Veloso Passos e Victor Cardozo apontaram, cada qual à sua maneira, os aspectos que confirmam a referida associação entre autor e alter-ego personalítico, malgrado este não ser o elemento dramatúrgico que mais chama a atenção (política, inclusive), conforme Caio fez questão de insistir, mencionando, inclusive, um célebre artigo da revista virtual Contracampo que se refere ao filme como uma versão atualizada do clássico combatente A CHINESA (1967, de Jean-Luc Godard). Entretanto, os participantes da sessão anuíram que os personagens Karin (Bodil Jørgensen) e Jeppe (Nikolaj Lie Kaas) destacaram-se como portadores da imagem-afecção deleuzeana, no filme, visto que a primeira transcende a institucionalização da loucura contestatória apresentada pelos “idiotas” enquanto o segundo a experimenta de maneira passionalmente identificada, protagonizando um dos instantes mais emocionantes do filme, quando ele se joga diante do carro que rapta a sua amada com prévios problemas depressivos. A temática constante na filmografia trieriana da oposição entre forasteiros e comunidade também foi evocada, tornando imprescindível que, na semana seguinte, vejamos o terceiro filme desta “trilogia do coração de ouro” [que, nalguns casos, é vista como uma tetralogia, já que pode incluir também o posterior DOGVILLE (2003)]. Ou seja, no sábado, dia 11 de outubro de 2014, veremos, novamente no apartamento de Caio Amado, o musical DANÇANDO NO ESCURO (2000), que, não estando mais atrelado ao Dogma ‘95’, subverte brilhantemente mais uma determinação do Manifesto, sendo um (i)legítimo “filme de gênero”.
No texto de Jonathan Rosenbaum para o guia “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” sobre FESTA DE FAMÍLIA (1998, de Thomas Vinterberg), filme que inaugurou o Dogma ’95, o crítico refere-se aos dois primeiros filmes efetivados sob o jugo do Manifesto como “atos de rebelião e ousadia literalmente definidos por suas convenções de classe média e persistente apoliticismo”. Os filmes, porém, vão além das intenções iniciais, podendo ser lidos sob diferentes vieses (sociológico, psicológico, filosófico, etc.), a ponto de Jadson destacar o quanto os comportamentos tendentemente gregários de Karin são justificados pela escolha advinda do extremo sofrimento. Citando novamente um texto kierkegaardiano [o Livro III de “O Desespero Humano (Doença Até a Morte), publicado em 1849: “Personificações do Desespero”], “o eu que não se torna ele próprio permanece, saiba-o ou não, desesperado. No entanto, o eu está em evolução a cada instante da sua existência – porque o eu ‘katà dynamin’ (em potência) não tem existência real –, e não é senão o que será. Enquanto não consegue tornar-se ele mesmo, o eu não é ele mesmo. E não ser ele mesmo constitui o desespero”.
Seguindo em frente com esta interpretação kierkegaardiana, retomando a questão da possibilidade e da necessidade, e aplicando-o às indagações comparativas acerca da personalidade do próprio Lars Von Trier e as extensões de ‘persona’ que ele empresta a seus personagens, vale a pena acrescentar que “um eu que se olha no seu próprio possível é apenas semiverdadeiro, porque neste possível está muito longe de ser ele mesmo, ou o é apenas em parte. Ainda não se pode saber o que decidirá sua necessidade no futuro. O possível lembra a criança que recebe um convite que lhe agrada e prontamente aquiesce. Não se sabe se seus pais darão consentimento. E os pais desempenham a função da necessidade”. No filme, a autoridade paterna aparece como faceta mui repressora dos Aparelhos Ideológicos de Estado detectados por Jean-Louis Althusser.

No texto original do Dogma ’95, inclusive, há um juramento pretensamente anti-autoral, que apregoa: “juro, como diretor, que me abstenho do gosto pessoal! Já não sou um artista. Juro que me abstenho de criar uma ‘obra’, já que considero o instante mais importante que o todo. Meu objetivo supremo é arrancar a verdade de meus personagens e cenários. Juro fazê-lo por todos os meios disponíveis e à custa de qualquer bom gosto e quaisquer considerações estéticas”. Não por acaso, estas questões – relativas ao (bom) gosto e aos cânones artísticos – também são discutidas pelo filme e, como tal, foram apontadas no debate posterior à sessão, no qual os cecinéfilos fizeram um elogio unânime ao talento e à espantosa capacidade de entrega do magistral elenco reunido por Lars Von Trier. Na semana subseqüente, continuaremos a averiguação do forte impacto afetivo deste filme sobre o grupo, ainda em andamento... (WPC>)

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