sábado, 25 de outubro de 2014

RELATÓRIO 34

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 20 DE SETEMBRO DE 2014: “A cada momento de desespero, se apanha o desespero. O presente constantemente se desvanece em passado real, a cada instante real do desespero, o desesperado contém todo o passado possível como se fosse presente. Isso deriva de ser o desespero uma categoria do espírito, que, no homem, se refere à sua eternidade. Todavia, não podemos ficar quites com esta eternidade para toda a eternidade. Tampouco, sobretudo, rejeitá-la por uma vez. A cada instante em que estamos sem ela, é porque já a rejeitamos ou estamos a rejeitá-la – mas ela volta, isto é, em cada instante que desesperamos, apanhamos o desespero. Isso porque o desespero não é uma conseqüência da discordância, mas da relação orientada sobre si mesma. Desta relação consigo própria, tampouco como do seu eu, o homem pode estar quite, o que não é, enfim, senão o mesmo fato, já que o eu é a relação voltada sobre si mesma” [capítulo II do livro I de “O Desespero Humano (Doença Até a Morte)”, de Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855)].
A despeito dos problemas de inteligibilidade, renitentemente apontados por Jadson Teles, decorrentes da má tradução da obra, o trecho acima tem muito a ver com PERSONA – QUANDO DUAS MULHERES PECAM (1966), filme que encerrou a imersão do Cecine/UFS na filmografia bergmaniana. Se, inicialmente, Wesley Pereira de Castro opôs-se tangencialmente a esta maratona Ingmar Bergman – que, em sua opinião, parecia ser uma longa digressão em relação ao que Gilles Deleuze apregoava acerca da imagem-afecção – em sua apresentação do filme, ele voltou atrás nesta reprimenda, elogiando o genial cineasta sueco como um dos mais argutos artífices da referida imagem, a partir de sua característica opção estilística por enquadrar seus personagens angustiados em ‘close-ups’ praticamente adiegéticos, de tão destacados que o são em relação à realidade que os circundam. Neste sentido, Wesley serviu-se de um artigo de Hamish Ford (cujo ‘link’ é disponibilizado nos comentários) para ressaltar o quanto estes ‘close-ups’ assemelham-se a buracos negros nos quais não apenas os personagens podem encarar o vazio que os atormentam, mas também o espectador pode preencher este vão com as suas próprias experiências de identificação atormentada em relação às aflições existenciais sofridas pelos protagonistas. Entretanto, Wesley fez questão de explicar que estava a apresentar o filme antes da sessão pois perigava ficar paralisado de tanta mortificação beatífica após o seu desfecho...
Em sua apresentação, Wesley frisou algumas críticas freqüentes ao diretor escandinavo no que tange às acusações feitas por seus detratores de que ele seria “apolítico” e excessivamente autocentrado, além de enumerar aspectos das principais fases da carreira do diretor, que encontra no filme supramencionado o píncaro de sua genialidade, inaugurado a etapa mais radical de sua filmografia. Quando destaca algumas curiosidades acerca da feitura do filme – que fora idealizado quando o diretor encontrava-se internado numa clínica de repouso –Daniela da Silva fez questão de acrescentar algumas observações junguianas sobre o significado do título original do filme (que significa ‘máscara’ em latim), relacionando-o às sombras inconscientes que se seguem à necessidade de se desempenhar papéis sociais. Além disso, ela mencionou algumas idéias do médico romeno Jacob Levy Moreno, idealizador do psicodrama, que, em sua essência, anteciparam as soluções inventivas da trama, antes de a mesma ser conferida.
Terminada a sessão, os cecinéfilos precisaram de alguns minutos para recuperarem a sanidade verbal. Mesmo quem já tivera acesso ao filme em mais de uma ocasião precisou admitir que estivera diante de uma experiência renovada, particularmente pungente e sujeita a inúmeras interpretações. Aspectos relacionados à especificidade cinematográfica do filme (num sentido metalingüístico e discursivo) e às impressões morais relacionadas às protagonistas foram trazidos à tona, o que fez com que o mentor Caio Amado, em dado momento, relembrasse a simbologia da fita de Moebius, que transmuta uma perspectiva duplicada numa constante infinita de interrelacionamento sígnico. Disse Caio: “a realidade está ligada à diferenciação. Se tudo fosse uma coisa só, o mundo desapareceria...”. Assim sendo, a vasta gama de dicotomias especificadas na apresentação inicial de Wesley, com base num artigo de Carlos Armando Guimarães sobre o filme, também foi resgatada, principalmente no que diz respeito às polarizações entre luz X sombras, eu X outro e silêncio X palavra, para ficar em apenas algumas, no referido filme.

Na semana que vem, seguindo a tradição nórdica, veremos “Ondas do Destino” (1996, de Lars von Trier), em local ainda não definido, mas que será devidamente anunciado por este relator em convocatória redigida no máximo até sexta-feira. Enquanto o sábado vindouro não chega, recuperemo-nos gradualmente do imenso impacto estético, moral, filosófico, religioso, terreno, erótico, artístico, psicanalítico e eminentemente cinematográfico que esta obra-prima sueca depositou em todos nós! (WPC>)

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