RELATORIA
DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 30 DE AGOSTO DE 2014: “O destino de MONIKA E O DESEJO
[1952] começa. O filme de Ingmar Bergman ganha então uma força lancinante e vai
irromper, de forma arrítmica, por fulgores, por imagens, por fiapos, a começar
pelos críticos (Roger Tailleur, Jean-Luc Godard, etc.), antes de contaminar os
outros filmes, invadi-los a vários anos de distância. Raramente um filme
exerceu tamanha influência tão determinante e subterrânea quanto este, ocupando
o centro dos debates da década seguinte. Tornou-se inclusive objeto de desejo:
MONIKA E O DESEJO encarna o desejo de fazer cinema misturado ao desejo de
ilustrar uma mulher diferente, moderna, e a imagem de Harriett Andersson
perturbará os pensamentos de muitos personagens do cinema dos anos 1960”.
Este comentário do pesquisador Antoine de Baecque,
sobre o filme visto na reunião deste sábado, é basilar para que entendamos o
subtítulo do extraordinário livro “Cinefilia: invenção de um olhar, história de
uma cultura (1944-1968)”. Nesta obra, o autor analisa as mais célebres
polêmicas envolvendo os filmes seminais para o surgimento da ‘Nouvelle Vague’
e, dentre estes, o clássico bergmaniano (re)visto em conjunto surge como um dos
mais importantes, visto que, para além de vários outros elogios, o então
crítico Jean-Luc Godard descreveu uma cena-chave desta obra – aquele em que a
protagonista encara a câmera, antes de tomar uma decisão delicada acerca de sua
própria vida – como “o mais triste da história do cinema”. Controvérsias à
parte, Robson Viana,
quando de sua apresentação ao filme, antes do início da sessão, exclamou que,
“mesmo que a protagonista esteja completamente maquiada e vestida nesta
seqüência, em nenhum outro momento do filme ela está tão nua!”. Quem há de
discordar?
Conforme sói acontecer perante as obras que
correspondem à noção deleuzeana de imagem-afecção, MONIKA E O DESEJO também
deixou os cecinéfilos em estado de perplexidade. O debate levou em consideração
a sua importância positivamente devastadora no contexto crítico supracitado,
mas, obviamente, também prestou atenção aos componentes tramáticos de origem
kierkegaardiana, sendo que Jadson Teles prestou
especial atenção à correspondência entre o idílio insular dos protagonistas
apaixonados e o conceito de “instante imediato mediatizado”, que apreendera
numa aula sobre o filósofo dinamarquês que venera. Victor Cardozo, por sua
vez, destacou a importância dos componentes naturais na reverberação
comportamental dos personagens, o que foi anuído pelos demais nos comentários
subseqüentes. Wesley Pereira
de Castro aproveitou a deixa para ler os trechos do livro de
Antoine de Baecque que mencionavam o filme e lamentou que não houvesse mais
espectadoras femininas (ou feministas) presentes a esta sessão (Daniela da Silva,
maravilhosamente vestida, foi a única), já que, em meio aos incontáveis
aspectos do filme merecedores de análise, o modo como a sensualidade “selvagem”
da protagonista opõe-se ao padrão de erotismo ginecofílico instituído por
Hollywood merece ser investigado com acurácia. Um dos motivos: na filmografia
bergmaniana, a ausência de Deus é compensada pela sexualidade, por sua vez
incapaz de atingir tal premissa existencial elementar.
Segundo o crítico Carlos Armando Guimarães – que,
em seu texto sobre o filme, transcreve um diálogo de QUANDO AS MULHERES ESPERAM
(1952) que serve perfeitamente como prognóstico do que acontece em MONIKA E O
DESEJO: “deixa-os partir. Voltarão um dia. O essencial é que tenham a sensação
de fazer algo proibido... Deixa-os aproveitar o verão. As feridas, a sabedoria
e outros embrutecimentos os farão voltar bem depressa” – cada filme de Ingmar
Bergman “é inseparável de uma obra que forma um todo, no qual cada parte se
completa, se explica, se desenvolve pelas outras”. Por este motivo, ainda que
tenhamos escolhido mui perspicazmente um quarteto de produções influenciadas
pela filosofia kierkegaardiana que corresponde adequadamente às exortações de
Gilles Deleuze sobre a expressividade afetiva do rosto humano, quanto mais
filmes bergmanianos forem vistos, melhor! O mentor Caio Amado, pensando nisto,
acondicionou um número considerável destes filmes num ‘pendrive’, destinado a
ser compartilhado pelos integrantes do grupo. Manifestem-se e interajam neste
aspecto, a fim de que o mesmo tenha o seu objetivo cumprido.
Para a semana que vem, na reunião
do dia 6 de setembro de 2014, veremos o filme imediatamente posterior a MONIKA
E O DESEJO, NOITES DE CIRCO (1953), que, segundo Caio Amado, responsável por
sua apresentação, tem muito a ver com um texto de Henri Bergson, “O Riso”, já
lido e debatido pelos cecinéfilos. Vale a pena a releitura. Até o sábado que
vem! (WPC>)

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