RELATORIA
DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 06 DE SETEMBRO DE 2014: “Foram poucos os críticos que,
na época do lançamento desse filme – tido como o mais ‘maldito’ da carreira de
Ingmar Bergman – sentiram e viram que algo de insólito, inaudito e perturbador
havia acontecido com o cinema. A construção de NOITES DE CIRCO [1953] era algo
desconcertante para o seu tempo (e aí se explica sem dúvida a dificuldade dos
críticos em seguir as intenções do cineasta): um ‘flashback’ no início narra um
acontecimento de alguns anos antes com um casal de personagens secundários e
que será a chave dramática da fita, pois um caso semelhante irá acontecer com o
casal protagonista. O filme é, com efeito, estruturado em forma de espiral: as
situações se fecham em círculos apertados e depois se repartem por saídas
estreitas e aneladas”.
Esta síntese elaborada pelo crítico Carlos Armando
Magalhães sobre o filme visto coletivamente pelos cecinéfilos na reunião do
último sábado é bastante elucidativa acerca do modo como foi conduzido o debate
sobre NOITES DE CIRCO: antes da exibição, o mentor Caio Amado – que estava
incumbido da apresentação do mesmo – preferiu transferir a sua fala para o
término da sessão, limitando-se a antecipar que, quando estreara, este filme
foi repudiado como um dos piores de todos os tempos, havendo alguns críticos
mais exaltados que atribuíram-lhe pechas comparativas a fezes e vômito.
Terminada a sessão, era óbvio que tal desapreciação não ocorreria, mas, ainda
assim, Wesley Pereira
de Castro demonstrou-se precipitadamente incomodado com o
filme: na verdade, o que o perturbava era o saldo masoquista do mesmo (para
utilizar um termo contido num dos trechos de críticas antigas que lemos) e não
a errônea impressão de que a obra como um todo legitimava o machismo dos
personagens. Victor Cardozo,
portanto, foi o mais falante em defesa do filme, realçando a maestria de seus
círculos dramatúrgicos de humilhação, que se elevam – novamente citando o
artigo de Carlos Armando – até o “plano da indagação filosófica e moral ao
abordar o drama desesperado de dois seres que negligenciam seu amor para
atender a apelos da falsa felicidade, tornando-se assim uma cruel meditação
sobre o sentido da vida”.
Se, por um lado, Daniela da Silva,
extasiada com o filme, exclamou que ele acabou muito rápido, Wesley, perturbado
em mais de um sentido com o seu conteúdo, quedou-se ruminando acerca do que
vira e sentira por demorados minutos. O anfitrião Jadson Teles, por sua vez,
deliberou acerca de como o roteiro do filme posicionava-se frente às
características do Romantismo e Anny Anjos, quando
percebeu que as personalidades fortes das mulheres eram contrapostas à
humilhação ou à covardia dos homens, pronunciou com firmeza o nome da
personagem citadina Agda (Annika Tretow), essencial para se compreender a série
de dicotomias que, segundo Caio, são levadas a cabo pelo diretor ao longo da
trama. Mais tarde, constatamos que um dos componentes do título original do
filme referia-se, na verdade, a serragem, elemento este que adiciona mais
algumas interpretações à já vasta teias de significados que abundam nesta obra
incompreendida e plena de imagens-afecção. No sábado seguinte, dia 13 de
setembro de 2014, mergulharemos nas agruras do grandioso LUZ DE INVERNO (1962).
Que haja muito mais bergmanismo em nossas vidas! (WPC>)

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