sábado, 25 de outubro de 2014

RELATÓRIO 32

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 06 DE SETEMBRO DE 2014: “Foram poucos os críticos que, na época do lançamento desse filme – tido como o mais ‘maldito’ da carreira de Ingmar Bergman – sentiram e viram que algo de insólito, inaudito e perturbador havia acontecido com o cinema. A construção de NOITES DE CIRCO [1953] era algo desconcertante para o seu tempo (e aí se explica sem dúvida a dificuldade dos críticos em seguir as intenções do cineasta): um ‘flashback’ no início narra um acontecimento de alguns anos antes com um casal de personagens secundários e que será a chave dramática da fita, pois um caso semelhante irá acontecer com o casal protagonista. O filme é, com efeito, estruturado em forma de espiral: as situações se fecham em círculos apertados e depois se repartem por saídas estreitas e aneladas”.
Esta síntese elaborada pelo crítico Carlos Armando Magalhães sobre o filme visto coletivamente pelos cecinéfilos na reunião do último sábado é bastante elucidativa acerca do modo como foi conduzido o debate sobre NOITES DE CIRCO: antes da exibição, o mentor Caio Amado – que estava incumbido da apresentação do mesmo – preferiu transferir a sua fala para o término da sessão, limitando-se a antecipar que, quando estreara, este filme foi repudiado como um dos piores de todos os tempos, havendo alguns críticos mais exaltados que atribuíram-lhe pechas comparativas a fezes e vômito. Terminada a sessão, era óbvio que tal desapreciação não ocorreria, mas, ainda assim, Wesley Pereira de Castro demonstrou-se precipitadamente incomodado com o filme: na verdade, o que o perturbava era o saldo masoquista do mesmo (para utilizar um termo contido num dos trechos de críticas antigas que lemos) e não a errônea impressão de que a obra como um todo legitimava o machismo dos personagens. Victor Cardozo, portanto, foi o mais falante em defesa do filme, realçando a maestria de seus círculos dramatúrgicos de humilhação, que se elevam – novamente citando o artigo de Carlos Armando – até o “plano da indagação filosófica e moral ao abordar o drama desesperado de dois seres que negligenciam seu amor para atender a apelos da falsa felicidade, tornando-se assim uma cruel meditação sobre o sentido da vida”.

Se, por um lado, Daniela da Silva, extasiada com o filme, exclamou que ele acabou muito rápido, Wesley, perturbado em mais de um sentido com o seu conteúdo, quedou-se ruminando acerca do que vira e sentira por demorados minutos. O anfitrião Jadson Teles, por sua vez, deliberou acerca de como o roteiro do filme posicionava-se frente às características do Romantismo e Anny Anjos, quando percebeu que as personalidades fortes das mulheres eram contrapostas à humilhação ou à covardia dos homens, pronunciou com firmeza o nome da personagem citadina Agda (Annika Tretow), essencial para se compreender a série de dicotomias que, segundo Caio, são levadas a cabo pelo diretor ao longo da trama. Mais tarde, constatamos que um dos componentes do título original do filme referia-se, na verdade, a serragem, elemento este que adiciona mais algumas interpretações à já vasta teias de significados que abundam nesta obra incompreendida e plena de imagens-afecção. No sábado seguinte, dia 13 de setembro de 2014, mergulharemos nas agruras do grandioso LUZ DE INVERNO (1962). Que haja muito mais bergmanismo em nossas vidas! (WPC>)


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