RELATORIA
DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 27 DE SETEMBRO DE 2014: “O estilo directivo de Lars Von
Trier é realmente impressionante. Apesar de sua longa duração, a trama se
mantém num contínuo estado limítrofe, nunca antecipando a sua próxima
reviravolta e mantendo-se progressivamente cativante. Temas duramente sexuais e
religiosos são apresentados de maneira terna, através de acentuados contrastes
entre comunidade, personalidade, espírito e crença. Os eventos que acompanham
as confusas conclusões de que os comportamentos de Bess (Emily Watson) estão a
salvar seu marido Jan (Stellan Skarsgård) poderiam resvalar no reino do pornô
‘softcore’, se não fossem os desempenhos epifânicos do elenco: Watson está
espantosamente centrada, ao passo que Skarsgård sustenta um papel que oferece
uma contrapartida crível às ações de Bess. Jan não é exatamente perfeito, já
que é malicioso e também confuso, egoísta e desesperado – um equilíbrio
complicado. Além deste par central, há também uma comunidade cujo ostracismo é
muito bem construído, através de suas aparências lúgubres e de seus sermões
furiosos. O uso consistente de câmera na mão, durante as filmagens, introduz
uma espécie de enjôo (semelhante àquele que acompanha as viagens marítimas) no
início, mas este se dissipa à medida que a estória evolui”...
O trecho acima destacado, de uma resenha do crítico
britânico Damian Cannon, publicado à época em que o filme foi lançado, antecipa
alguns dos comentários que os cecinéfilos externaram imediatamente após a
sessão do atordoante ONDAS DO DESTINO (1996, de Lars Von Trier). Para além das
observações imediatas anteriormente emanadas, o que interessava ao grupo era
identificar em que medida as imagens-afecção identificadas por Gilles Deleuze
se instalam na narrativa e o modo como este filme se filia à tradição nórdica
(capitaneada por Carl Theodor Dreyer e Ingmar Bergman) sobre a qual estamos nos
debruçando nos últimos meses. Por este motivo, a ausência (justificada
profissionalmente) deJadson Teles foi
tão sentida, visto que suas observações kierkegaardianas seriam habilmente
requeridas para complementar as opções estéticas e morais do diretor,
insuficientemente apreendidas pelos espectadores, tamanha a sua gama de
intenções e os subterfúgios publicitários de caráter sarcástico sob os quais as
primeiras são provisoriamente obnubiladas.
Se Victor Cardozo,
assumidamente avesso às manipulações confessas do diretor dinamarquês, iniciou
a sua fala admitindo que a revisão do referido filme revelou-lhe uma faceta mui
humana (e positivamente religiosa) do irônico cineasta, Robson Viana destacou
o quanto seu cinema seria influenciado pelo romantismo, inclusive numa
perspectiva “brega”, assimilada pela Indústria Cultural, tendência manifesta no
filme pelas canções que acompanham os seus capítulos. Wesley Pereira de Castro e
os demais discordaram deste último comentário, ao alegarem que as canções
selecionadas pelo diretor não apenas correspondem a pontos altos do cancioneiro
‘rocker’ anglofílico como são enredisticamente requisitadas pela narrativa,
visto que validam a intervenção dos “forasteiros” sobre a rigidez hipócrita dos
costumes comunitários que oprimem a protagonista e sintetizam narrativamente a
trama, como se fossem a voz ‘off’ do narrador de uma fábula.
Sobre este aspecto musical-narrativo, o resenhista
Damian Cannon se interpôs, mas os cecinéfilos aplaudiram demoradamente, ficando
a Wesley o encargo de listar as canções selecionadas por Lars Von Trier, cujas
letras ajudam a compreender aspectos sub-reptícios dos comportamentos dos
personagens. Estas são: “Life on Mars” (David Bowie); “Virginia Plain” (Roxy Music);
“A Whiter Shade of Pale” (Procol Harum); “Cross-Eyed Mary” (Jethro Tull); “In a
Broken Dream” (Rod Stewart); “Child in Time” (Deep Purple); “I Did What I Did
for Maria” (Tony Christie); e “Goodbye Yellow Brick Road” e “Your Song” (ambas
de Elton John). Vale a
pena reouvir as canções e prestar atenção ao que elas dizem…
Feita esta distinção inicial, os espectadores,
ainda num estado relativamente transeúnico frente à grandiloqüência afetiva do
filme, teceram algumas comparações com os filmes previamente vistos em grupo
[notaram que a protagonista Emily Watson, numa cena inicial, encara a câmera de
tão cúmplice quanto o fez Harriet Andersson em MONIKA E O DESEJO (1952, de
Ingmar Bergman), por exemplo] e tergiversaram acerca do anticlericalismo
trieriano. Neste ponto, os membros do grupo presentes à sessão indagaram-se
acerca de quais pontos a personagem principal deste filme atrela-se aos
comportamentos sacrificiais das mulheres que protagonizam as obras posteriores
de Lars Von Trier, cujas modificações sutis e radicais de estilo foram
demoradamente analisadas pelos cecinéfilos, desencadeando numa ojeriza comum
por seu díptico fílmico mais recente [NINFOMANÍACA – VOLUME 1 (2013) e
NINFOMANÍACA – VOLUME 2 (2013)], que banaliza (em nível quase adolescente) as
obsessões estridentes do diretor por teses fílmicas, que abundam
proveitosamente em ONDAS DO DESTINO.
Em seu artigo sobre o filme, no
guia “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, Kim Newman apresentou ONDAS DO
DESTINO da seguinte forma: “antes de lançar um manifesto encorajando o
comprometimento com um dogma, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier fez um
filme sobre os horrores ambíguos de viver sob um dogma”. Segundo ela, este
filme inaugura uma trilogia completada por OS IDIOTAS (1999), efetivado
justamente sob os mandamentos do Dogma 95, e DANÇANDO NO ESCURO (2000),
premiado no Festival Internacional de Cinema de Cannes. Alguns insistem em
acrescentar DOGVILLE (2003) a esta trilogia, opção em relação à qual o mentor
Caio Amado tem ressalvas, visto que o modo como a protagonista se relaciona com
os atos perversos de uma comunidade de hipócritas difere do modo como as
pessoas se organizam (e se condenam) internamente nos filmes anteriores.
Compete ao grupo seguir refletindo sobre todas essas questões, de modo que, no
sábado seguinte, dia 04 de outubro de 2014, veremos justamente OS IDIOTAS, para
muitos, a obra máxima da filmografia trieriana. Indtil næste lørdag! [‘Até o
sábado que vem!’, em dinamarquês](WPC>)

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