Um texto para Nick
“Meus heróis não são mais neuróticos que o público. A menos
que você possa sentir que nosso herói é tão ferrado quanto nós e que cometeríamos
os mesmos erros que ele, não pode haver satisfação quando ele realiza de fato um
ato heroico. Porque então você poderá dizer: ‘diabos, eu poderia ter feito isso
também’. E essa é a obrigação do realizador de filmes ou do trabalhador do
teatro: dar o mais elevado senso de experiência às pessoas que pagam para ir
ver o seu trabalho. ”
- Nicholas Ray
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I - “Esse garoto e essa garota nunca foram
realmente introduzidos ao mundo em que vivemos. Essa é sua estória...”
Com essas palavras (e um belo pano no qual reconhecemos o
apaixonado casal de protagonistas), se inicia AMARGA ESPERANÇA (“They Live by Night”, 1948). Nicholas Ray
passaria toda sua carreira (poderia se dizer, toda a sua vida) debatendo-se com
todas as suas forças contra o peso de um mundo sempre disposto a sacrificar o
indivíduo. A estilização extrema (sempre composta com maestria) não serve de obstáculo
para que esse conflito básico, tão inerente a existência de qualquer pessoa que
trave contato com a sociedade. Muito pelo contrário: a opacidade dos mundos
transpostos (muitas vezes delirantes ou oníricos, sempre em franca
incompatibilidade com seus protagonistas desesperados) faz da surrealidade uma
janela para a mais pura identificação – não importa quão febril e selvagem,
vemos a nós mesmos e o mundo presente estampado em suas tintas fortes.
Nesse seu primeiro filme é impossível não se surpreender com
a força com que são delineadas as características mais autorais de Ray, que
ganhariam diversas e geniais ramificações ao longo de sua filmografia: a
crítica institucional que tem como alvo tanto a marginalização social quanto o
processamento impessoal e incompatível da geração mais jovem (especialmente
contundente aqui, visto que uma das figuras de autoridade policial declara “é
provavelmente culpa nossa” ao se referir ao ciclo de delinquência juvenil que
arremessa Bowie na vida de criminoso); o sujeito que sempre necessita ser
afastado (ou afastar-se por vontade própria) da sociedade ou do grupo social o
qual pertence (os velhos comparsas são ameaça tão grande quanto os policiais)
para poder viver como almejam suas aspirações individuais; a violência
psicológica inevitável aos personagens que vivem nesta queda de braço entre
individualidade e pressões contraditórias da coletividade (e se todos os
eventos de violência física acontecem fora do quadro, não somos poupados da
virulência furiosa de personagens em colisão constante); a presença de “heróis”
masculinos instáveis, imaturos e violentos que encontram redenção por
intermédio de uma personagem feminina mais forte e centrada, ainda que
igualmente marginal (na devoção terna para um com o outro, o casal rompe
conscientemente com o resto da coletividade ou grupo social responsável pelo
conflito recorrente); e por fim o sacrifício do marginal, bode expiatório por
excelência de um sistema eternamente em crise, sistema esse assombrado ao mesmo
tempo pela consciência (sufocada a todo custo) de seu colapso e por uma
ignorância infindável a qualquer sutileza individual.
Notável, também é a desenvoltura que Ray apresenta enquanto
encenador: as atuações não são menos que magnéticas (periga ser a melhor
performance da carreira de Farley Granger e também de Cathy O’Donnel, com
desempenhos fortíssimos do resto do elenco). Cada ator em cena se mostra
perfeitamente em sintonia com o projeto de Ray: os amantes são como anjos
caídos, esgueirando-se pelas noites melancólicas de uma América falida num rumo
anunciado para a tragédia (afinal, o sacrifício sempre é cobrado). Sua
vulnerabilidade e inocência nos enternece, enquanto cabe aos demais
antagonistas (figuras tristes, frustradas – adultas) transparecer como a
malícia e violência do mundo surgiu algum dia dessa mesma semente.
II – “Eu vivi algumas semanas enquanto você me
amou...”
Servindo como radiografia em preto e branco tanto de seu
diretor quanto de seu astro, NO SILÊNCIO DA NOITE (“In a Lonely Place”, 1950) é possivelmente um dos filmes mais
amargos já feitos. Dix Steele, o roteirista desiludido personificado por
Humphrey Bogart é tão mais digno de interesse quanto maior o seu lado sombrio:
é de seu cinismo (ainda que esconda um romantismo insuspeito) que surge o senso
de ironia ferino e perspicaz que lhe garante ideias brilhantes para seus
roteiros, mas também lhe deixa em maus lençóis com a polícia (e a sociedade em
geral). É de sua impetuosidade explosiva que surge seu charme, mas também os
arroubos de violência que o fazem cair em desgraça (e no alcoolismo). Sua dupla
salvação surge na forma da atraente vizinha Laurel (Gloria Grahame – em seu
maior papel, ironicamente vivendo a deterioração de seu casamento com Ray nos
bastidores). Por atração mútua, Laurel livra Dix de uma acusação de homicídio
(cuja suspeita criminal se deve principalmente ao humor sombrio do roteirista).
Inevitavelmente, a paixão surge e rapidamente as melhores virtudes e piores
defeitos de Steele começam a aflorar. Seu cinismo se abranda e sua criatividade
ganha asas, mas a suspeita imposta por relações sociais mesquinhas e
incompetência institucional (sempre ela) dilatam de tal forma a tensão entre o
casal que nada do relacionamento sobra quando a verdade sobre a acusação de assassinato
finalmente vem à tona. Steele é inocente, mas o cerco dos demais o torna
perfeitamente capaz de cometer o crime contra sua própria amada e é a
consciência disso que o empurra no abismo, subtendido pelas palavras e
evidenciado pelas sombras noturnas (num dos mais terrivelmente belos trabalhos
em composição e fotografia do gênero noir).
Truffaut costumava chamar Nicholas Ray de “o poeta do anoitecer”. Diante de obras
como AMARGA ESPERANÇA e NO SILÊNCIO DA NOITE, não fica muito difícil de
entender o porquê.
No entanto, temos o outro lado da moeda em CINZAS QUE
QUEIMAM (“On Dangerous Ground”,
1952), que de várias formas é o contraponto perfeito do pessimismo de In a Lonely Place. O filme começa em
perspectiva ainda mais sombria: Jim Wilson (Robert Ryan) é um policial cuja
violência empregada no encalço dos criminosos é tão severa que costuma
incapacitar o processo acusatório antes mesmo que eles cheguem a um tribunal.
Vemos um homem amargurado, que se recusa a deixar qualquer leveza entrar em sua
vida, imerso no “lixo” de sordidez pelo qual ele se queixa de estar sempre
envolto. Sua única resposta a qualquer ação que viole seu rígido código moral é
a repressão imediata de um cão raivoso. Sua personalidade vulcânica só é desafiada
pela serenidade de Mary (Ida Lupino), irmã do suspeito que Jim é incumbido de
capturar. Seguido pelo violento pai da vítima (Ward Bond), que deseja ele mesmo
vingar-se do suspeito com sua espingarda em punho, Jim chega até o remoto chalé
de Mary sem saber ainda que ela é irmã do assassino foragido e que é cega. Com
sua gentileza e serenidade, Mary consegue convencer o detetive a proteger seu
irmão, um jovem deficiente mental incapaz de responder por seus atos. Diante
disso, Jim é ainda obrigado a encarar a versão mais extrema de sua própria
violência na figura do pai da vítima, o espírito encarnado do linchador
fanático (não por acaso, o linchamento é tema constante na obra de Ray). Segue-se
uma desesperada perseguição, na qual ironicamente o retorno ao lar assume a
forma de tragédia (sacrifício). No entanto, o bem feito também não pode ser
desfeito: o contato com Mary modifica para sempre Jim, que ganha perspectiva e
controle emocional sem precedentes ao retornar a sua cidade e a seu trabalho.
Para além dos momentos antológicos (a cena em que “vemos” a chama de uma vela
pela perspectiva de uma mulher cega é algo inacreditável), da forma como o
filme vai se transformando por completo em termos de ritmo e atmosfera a cada
um de seus atos (outra característica autoral de Nicholas Ray – a cada novo
ambiente é como se adentrássemos em um novo filme) a progressão do denso
pessimismo das sequências iniciais à epifania de iluminação que se inicia com a
chegada da personagem de Ida Lupino é de uma beleza lancinante, que marca não
apenas uma nova clareza do olhar do endurecido (e ao final, terno) policial
vivido por Robert Ryan, mas também a nossa, enquanto audiência. Somos todos testemunhas.
É um filme sobre a luz.
III – “Eu mesmo sou
um estrangeiro aqui...”
Tudo e mais um pouco já foi dito sobre essa erupção de
paixão cinematográfica chamada JOHNNY GUITAR (1954). O uso delirante e
fortíssimo da cor; a desconstrução infinitamente genial do gênero (tanto do
western como dos desdobramentos sociais e sexuais de gênero); a pulsão amorosa
que nutre os protagonistas (e boa parte dos demais personagens que os
circundam); a perspicaz e coerente alegoria da era McCarty numa época em que a
mesma se encontrava em plena ebulição persecutória; a poesia arrebatadora dos
diálogos, dos duelos e da cenografia barroca. Johnny
Guitar pode muito bem ser considerada a obra-síntese de seu diretor, visto
que contém todos os seus melhores arroubos de genialidade autoral até então e
antecipa a maioria dos seguintes. Claro, tal afirmação pode ter um caráter
apenas parcial e limitado, visto que a filmografia de Ray conta com um número impressionante
de obras-primas únicas, cada qual versando sobre aspectos muito específicos (e
mesmo seus filmes menores ou sabotados por arbitrariedades dos estúdios possuem
lampejos de mestre). Mas não é absurdo afirmar que neste filme temos um autor
de cinema no máximo de suas capacidades. Temos o arquétipo do marginal
relutante, o próprio Johnny (Sterling Hayden) que quer apenas deixar para trás
o passado de violência e reencontrar sua amada. Temos a impetuosa Vienna (Joan
Crowford), para todos os efeitos, real protagonista e centro (moral, narrativo,
ideológico e relacionamental) da trama, com seu projeto de construção utópica
de uma comunidade menos presa, onde as coisas sejam feitas à sua maneira. Temos
sua figura antagônica, Emma (Mercedes McCambridge) que se ressente por
encontrar em Vienna uma rival no domínio econômico (e sobre os homens da
cidade) que ousa desafiar os preceitos moralistas que ele segue de forma
hipócrita (não por acaso, ela sabe como ninguém manipular a turba e os
interesses escusos, tanto políticos quanto monetários que levam à delação). Temos
Dancin’ Kid (Scott Braddy) e Turquey (Bem Cooper) os desajustados que cortejam
o crime de forma juvenil e inconsequente, figuras muito semelhantes ao que o
próprio Johnny provavelmente foi no passado. Temos Old Tom (John Carrandine) e
Corey (Royal Dano), figuras gêmeas de devoção amorosa platônica, ainda que em
ordenamentos de grupo distintos (inclusive, cabe a Tom uma das sequências mais
comoventes, onde ele reconhece e transcende sua própria invisibilidade enquanto
“homem comum”, num monólogo que resume pungentemente o conceito de herói
defendido por Ray). No entretanto, ao contrário da maioria das obras raynianas,
há uma utopia com engrenagens concretas: por poderosa e rica que seja a demoníaca
Emma, ela tem nos planos empreendedores de Vienna uma ameaça que extrapola os
interesses específicos: trata-se de um rompimento com os valores mais caros ao
conservadorismo capitalista e puritano que tem voz altissonante nos EUA: a
“puta de estrada” tem um projeto de cidade, uma conduta ética de respeito aos
trabalhadores impecável e é a detentora absoluta tanto do entretenimento quanto
da tolerância (pacifista, inclusive) aos homens perdidos que povoam a cidade
(mal vemos que cidade é esta, tamanha é sua defasagem no tempo – os cenários
dominantes são o Vienna’s e o covil do bando de Kid). Fatalmente, as mandíbulas
da comunidade moribunda se cerrarão sobre essa utopia (é absolutamente
impossível esquecer o plano em que chamas infernais se erguem sobre o saloon,
especialmente sendo ele posterior a resplandescência com a qual Vienna tocava
seu piano com seu vestido branco, senhora de si mesma). Resta a heroína aquela
que é afinal a mais desejada das aspirações, no cinema de Ray: sua paixão: o
imperfeito e terno Johnny Guitar (justificando, inclusive o título, que muitos
apontam enquanto irônico ou concessivo às concessões do western). Nada mais coerente: para os protagonistas sem lar de Nicholas Ray, a paixão é sempre o centro de todas
as coisas.



