domingo, 14 de junho de 2015

RELATÓRIO 47

RELATÓRIO 47

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 28 DE MARÇO DE 2015: Conforme é fato conhecido de todos os cinéfilos, apesar de o roteiro de VIRIDIANA (1961, de Luis Buñuel) ter sido aprovado pela ditadura franquista – com reservas, obviamente – após o lançamento do mesmo e a conquista da Palma de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes, o filme foi veementemente proibido na Espanha até 1977, além de ter a sua nacionalidade negada.
Além de pôr em tela estes dados históricos, os cecinéfilos que compareceram à reunião ordinária deste sábado experimentaram o êxtase supremo frente à obra-prima máxima deste genial diretor espanhol, sobre o qual o crítico David Robinson, em seu artigo no guia “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, antecipa: “repleto de momentos de observação surrealista, VIRIDIANA permanece como uma das mais perfeitas exposições das imperdoáveis loucuras da natureza humana e uma comédia da vida que não admite os limites da repressão”.
Ao término da sessão, o mentor Caio Amado recuperou algumas observações longevas acerca da carnavalização (segundo a perspectiva de análise bakhtiniana) e elencos diversos momentos do filme em que há inversão de costumes de classe, tema este que, sob formas mais sutis, também abundava na filmografia mexicana de Luis Buñuel. Wesley Pereira de Castro, por sua vez, recuperou as observações deleuzeanas e destacou os momentos em que os rompantes surrealistas correspondiam a seqüências inequivocamente realistas, numa perspectiva metafórica e/ou metonímica, tal qual acrescentou Caio Amado, em seguida, e Manoela Veloso Passos, a partir da rememoração de seqüências marcantes que “rompiam” a narrativa, como o instante em que um gato pula sobre um rato indefeso, no mesmo instante em que o mulherengo primo da protagonista seduz a empregada...
Mauro, por sua vez, frisou que, da mesma forma que concordamos acerca do cinema de Robert Bresson, Luis Buñuel é um verdadeiro “inventor” cinematográfico, aproveitando aqui uma extensão da categorização artística levada a cabo por Ezra Pound. Se, por um lado, Victor Cardozo realçou mais algumas similaridades entre as obsessões psicanalíticas do diretor espanhol com aquelas que refulgem em obras hitchcockianas, por outro, Mauro Luciano, fez alguns comentários particulares acerca da constituição (não)diegética dos filmes buñuelianos, o que nos levou a uma discussão comparativa entre os filmes até então vistos, principalmente no que diz respeito ao conteúdo religioso ou blasfemo das obras em pauta. Ou seja, se, em NAZARÍN (1959), o caráter devoto do protagonista era visto como bastante simpática pelo enredo, em VIRIDIANA, a personalidade da personagem-título não gozava da mesma simpatia, visto que a mesma é tratada como uma espécie de joguete pelo roteiro. Manoela aproveitou a deixa para fazer um comentário acerca da incompreensão da feminilidade da personagem, o que foi referendado por Caio Amado e que, com certeza, será rediscutido quando virmos SIMÃO DO DESERTO (1965), justamente na reunião seguinte, em que este fabuloso média-metragem será exibido em seguida ao clássico O ANJO EXTERMINADOR (1962).

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