RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE SÁBADO, 21 DE MARÇO DE 2015
Após o fim da exibição de NAZARIN, os tambores que marcam a poderosa cena final pareciam ecoar ainda na mente dos que ali estavam. Foram discutidas as diversas facetas do protagonista buñueliano, que em sua busca espiritual e retidão moral, acaba se tornando um personagem delirante quando percebido dentro do contexto de iniquidade, superstição, violência e exploração (institucionalizada socialmente, inclusive) que parece sufocar a população empobrecida do México. Numa acertadíssima comparação, Caio Amado aponta as semelhanças entre Nazarin e Dom Quixote, citando uma passagem na qual o cavaleiro andante de Cervantes interrompe um açoitamento apenas para causar, indiretamente, um castigo maior para a vítima que pensa salvar (assemelhando-se a inocência de Nazarin ao passar por uma propriedade rural, que resulta num violento conflito ocorrido fora de quadro depois que o padre aceita trabalhar em troca de uma refeição – legitimando inadvertidamente a exploração contra a qual se revoltavam os trabalhadores). Outra comparação feita, essa mais explícita, é entre Nazarin e Jesus Cristo (presente inclusive no nome), comparação que se reflete de forma pontual na trajetória do protagonista e dos personagens (sendo a prostituta Andara uma espécie de subversão da figura de Maria Madalena, o criminoso sensato e o criminoso agressor encontrados por Nazarin na prisão como reflexões do bom e do mau ladrão crucificados ao lado de Jesus e sua prisão uma versão da via-crucis). Foram analisados os fortes e interessantíssimos personagens femininos, em especial Beatriz e Andara. Enquanto Beatriz passa de um torpor de sofrimento passional pela impossibilidade do romance carnal com o camponês Pinto ao surgimento de uma paixão platônica, de desejo sublimado, por Nazarin; este, em seu íntimo a corresponde de forma igualmente sublimada, direcionando o amor que nutre por sua seguidora ao amor universal por toda a criação de divina. Já Andara, personifica o arquétipo da crença popular, repleta de superstição (com a qual Buñuel compactua institivamente), revolta reivindicativa, surtos de selvageria e múltiplas facetas de comportamento, sendo talvez a personagem mais complexamente humana. Cena chave é o confronto entre Nazarin e o criminoso que o agride na prisão, onde pela primeira vez ele admite a dificuldade em perdoar (visto que até então sua conduta impecavelmente cristã se apresentava de forma inata à própria natureza do padre), sendo questionado pelo criminoso que o defende da agressão a respeito da utilidade de sua bondade, buscada de forma tão consciente. A partir daí, a crença até então inabalável, passa por um teste terrível. A humildade e altruísmo do padre, ainda que viessem com sinceridade e até mesmo inocência, escondiam uma grande dose de orgulho (demonstrado no ato de evitar ser ajudado o tanto quanto oferece ajuda, quando a mesma não chega pela forma ritualizada da esmola franciscana). A humilhação e a dúvida talvez sejam as provações maiores anunciadas no final ambíguo, que permite diversas interpretações (“afinal o que são os tambores?” pergunta Caio). É notável também a forma como as instituições de exploração e retroalimentação de classe, capitalizadas pela Igreja e pelo Estado, voltam seu descaso ou sua violência para a jornada solitária do religioso, para subsidia-la com aparato provedor e vigilante no último momento, comentário político riquíssimo de subtexto. Em determinado momento, Jadson pontua as ramificações da conduta cristã presentes no comportamento do protagonista, sendo a negação do carnal talvez o ponto de maior oposição e antagonismo dentro da passionalidade buñueliana, retomando alguns dos conceitos discutidos no capítulo sobre a imagem-afecção. Foi observada também, novamente, a ideia de contradição na obra buñueliana, que é sempre abraçada de forma consciente e admiravelmente despida de concessões ou subterfúgios, servindo inclusive de combustível para o surrealismo encontrado em seus filmes e que por vezes assume uma aura estranhamente reconhecível em relação a realidade perceptiva. Caio por fim discorre sobre a influência barroca na obra do diretor espanhol.
Após o fim da exibição de NAZARIN, os tambores que marcam a poderosa cena final pareciam ecoar ainda na mente dos que ali estavam. Foram discutidas as diversas facetas do protagonista buñueliano, que em sua busca espiritual e retidão moral, acaba se tornando um personagem delirante quando percebido dentro do contexto de iniquidade, superstição, violência e exploração (institucionalizada socialmente, inclusive) que parece sufocar a população empobrecida do México. Numa acertadíssima comparação, Caio Amado aponta as semelhanças entre Nazarin e Dom Quixote, citando uma passagem na qual o cavaleiro andante de Cervantes interrompe um açoitamento apenas para causar, indiretamente, um castigo maior para a vítima que pensa salvar (assemelhando-se a inocência de Nazarin ao passar por uma propriedade rural, que resulta num violento conflito ocorrido fora de quadro depois que o padre aceita trabalhar em troca de uma refeição – legitimando inadvertidamente a exploração contra a qual se revoltavam os trabalhadores). Outra comparação feita, essa mais explícita, é entre Nazarin e Jesus Cristo (presente inclusive no nome), comparação que se reflete de forma pontual na trajetória do protagonista e dos personagens (sendo a prostituta Andara uma espécie de subversão da figura de Maria Madalena, o criminoso sensato e o criminoso agressor encontrados por Nazarin na prisão como reflexões do bom e do mau ladrão crucificados ao lado de Jesus e sua prisão uma versão da via-crucis). Foram analisados os fortes e interessantíssimos personagens femininos, em especial Beatriz e Andara. Enquanto Beatriz passa de um torpor de sofrimento passional pela impossibilidade do romance carnal com o camponês Pinto ao surgimento de uma paixão platônica, de desejo sublimado, por Nazarin; este, em seu íntimo a corresponde de forma igualmente sublimada, direcionando o amor que nutre por sua seguidora ao amor universal por toda a criação de divina. Já Andara, personifica o arquétipo da crença popular, repleta de superstição (com a qual Buñuel compactua institivamente), revolta reivindicativa, surtos de selvageria e múltiplas facetas de comportamento, sendo talvez a personagem mais complexamente humana. Cena chave é o confronto entre Nazarin e o criminoso que o agride na prisão, onde pela primeira vez ele admite a dificuldade em perdoar (visto que até então sua conduta impecavelmente cristã se apresentava de forma inata à própria natureza do padre), sendo questionado pelo criminoso que o defende da agressão a respeito da utilidade de sua bondade, buscada de forma tão consciente. A partir daí, a crença até então inabalável, passa por um teste terrível. A humildade e altruísmo do padre, ainda que viessem com sinceridade e até mesmo inocência, escondiam uma grande dose de orgulho (demonstrado no ato de evitar ser ajudado o tanto quanto oferece ajuda, quando a mesma não chega pela forma ritualizada da esmola franciscana). A humilhação e a dúvida talvez sejam as provações maiores anunciadas no final ambíguo, que permite diversas interpretações (“afinal o que são os tambores?” pergunta Caio). É notável também a forma como as instituições de exploração e retroalimentação de classe, capitalizadas pela Igreja e pelo Estado, voltam seu descaso ou sua violência para a jornada solitária do religioso, para subsidia-la com aparato provedor e vigilante no último momento, comentário político riquíssimo de subtexto. Em determinado momento, Jadson pontua as ramificações da conduta cristã presentes no comportamento do protagonista, sendo a negação do carnal talvez o ponto de maior oposição e antagonismo dentro da passionalidade buñueliana, retomando alguns dos conceitos discutidos no capítulo sobre a imagem-afecção. Foi observada também, novamente, a ideia de contradição na obra buñueliana, que é sempre abraçada de forma consciente e admiravelmente despida de concessões ou subterfúgios, servindo inclusive de combustível para o surrealismo encontrado em seus filmes e que por vezes assume uma aura estranhamente reconhecível em relação a realidade perceptiva. Caio por fim discorre sobre a influência barroca na obra do diretor espanhol.
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