domingo, 14 de junho de 2015

RELATÓRIO 51

RELATÓRIO 51

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 25 DE ABRIL DE 2015: “Raymond Nicholas Kienzle é um autor, no sentido que gostamos de dar à palavra. Todos os seus filmes contam a mesma história, a de um violento que gostaria de deixar de sê-lo e seu relacionamento com uma mulher mais forte – pois o espancador, eterno herói de Ray é um fraco, um homem-criança, quando não simplesmente uma criança. Sempre a solidão moral, sempre os perseguidores”...
Assim escreve o então crítico François Truffaut, a propósito do autor de JOHNNY GUITAR (1954), obra-prima do subversor Nicholas Ray (1911-1979), filme que abrilhantou os espíritos dos cinéfilos nesta tarde cálida de sábado: se alguns dos presentes Manoela Veloso Passos, Lucas Barbosa Carvalho e, inicialmente, o mentor Caio Amado] não apreciaram por completo o final feliz e a canção-tema romântica interpretada por Peggy Lee, outros Victor Cardozo, Bruna Egipto Laísa Wesley Pereira de Castro] tacharam-no de absolutamente merecido. Uns e outros, entretanto, concordaram que o filme pode e deve ser lido sob inúmeras camadas interpretativas.
Enquanto Victor realçava as críticas antimacarthistas contidas no enredo e realçava elementos tácitos da bissexualidade de seu diretor, Mauro Luciano frisou o que alegara em sua apresentação da semana passada, em que descrevia Nicholas Ray como um filósofo político. A partir deste pressuposto não refutado, reverberações hermenêuticas dos conflitos mostrados no filme e de suas implicações sociológicas, psicanalíticas e eminentemente cinematográficas vieram à tona: homossexualidade sublimada, ‘mise-en-scène’ arquitetônica, tratamento cromático quase barroco, feminismo instintivo, inversão das convenções do gênero faroeste e, sobretudo, muitas pulsões. Tudo isso foi discutido pelos cecinéfilos!
Assim que o mentor propôs que quem vira o filme pela primeira vez manifestasse as suas impressões imediatas, Manoela externou uma exclamação pontual acerca de um dos aspectos mais geniais do filme: o seu título. Apesar de seu personagem batizar a obra, "Joãozinho Violão"(Sterling Hayden) não é o protagonista, mas, ao invés disso, uma espécie de objeto direto que baliza as atitudes da imperiosa Vienna (magnificamente interpretada por Joan Crawford). Os conflitos acirrados entre esta e a vilanaz Emma (Mercedes McCambridge) foram enxergados sob diferentes prismas: a oposição entre o capitalismo tradicional e o progresso; as disputas sexuais propriamente ditas (e ambivalentes); a metáfora acerca das perseguições anticomunistas da época; etc..

Ainda sobre a filmografia rayniana – da qual, cinco títulos versáteis foram escolhidos para serem vistos em grupo – Caio considera imprescindível que a maioria dos cecinéfilos consiga ver a maior quantidade possível de títulos deste autor, a fim de as definições de Gilles Deleuze sobre a imagem-pulsão tornem-se mais evidentes. Dentre as obras que Caio insiste para que sejam vistas individualmente e discutidas com entusiasmo em reuniões futuras, NO SILÊNCIO DA NOITE (1950) e CINZAS QUE QUEIMAM (1951) destacam-se pela qualidade e pela pujança. Eis um irrecusável convite! (WPC>)

Nenhum comentário:

Postar um comentário