domingo, 14 de junho de 2015

RELATÓRIO 52

RELATÓRIO 52

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 2 DE MAIO DE 2015
Antes mesmo que JUVENTUDE TRANSVIADA trespassasse os olhos dos presentes com suas vibrantes imagens em technicolor, boa parte dos membros do Cecine já debatiam empolgadamente sobre o mesmo. Se Victor afirmava seu espanto com a forma direta com a qual o filme tornava explícitas certas características dos personagens que geralmente seriam censuradas pelo conservadorismo das produções hollywoodianas norte-americanas dos anos 50, Caio Amado lembrava que muito do que parece obvio a olhos contemporâneos não seria tão facilmente percebido pelas audiências da época. O ponto que parecia comum a todos é que a primeira coisa a impressionar seria o uso exuberante das cores, bem como a atuação antológica de James Dean. Caio Amado também se mostrou interessado em ressiginificar duas resenhas antagônicas que havia lido, uma que apontava um caráter conservador na trama, outra defendendo a leitura oposta. Pouco importou no entanto, visto que o filme de Ray pôde alcançar novas camadas de leitura e força emocional renovada mesmo para aqueles que, como Jadson, já o haviam assistido de forma apaixonada inúmeras vezes.
Uma das características mais marcantes do filme, coerente com a denúncia institucional e social que permeia a obra de Nicholas Ray, é a falência da família nuclear. Como apontado por Caio, todas as famílias do trio de protagonistas (Jim, Judy e Platão) são omissas e disfuncionais. Lembramos que o filme foi lançado no auge da década de 50, na América conservadora de Eisenhower, caracterizada pela sua rigidez cultual, marcada por ser uma geração pós guerra  - “a idade atômica!” como anuncia alegremente o irmão caçula de Judy em determinado momento. Nesse contexto, Mauro observa que pode-se interpretar o filme por um viés conservador, visto que o trio de desajustados interpretado por James Dean, Sal Mineo e Natalie Wood saem de suas famílias insuficientes para formar sua própria. No entanto, Victor defende, o filme é assombrado por um profundo senso de fim de mundo, de abismo (sintetizado na cena do planetário mas também no trágico “racha” automobilístico entre os jovens e no ainda mais trágico desfecho) que afastaria qualquer ideia de status quo triunfante. Caio também faz uma análise comparativa entre o modelo tradicional de conduta masculina da geração anterior e o representado pelo personagem de James Dean – forte e confiável mas também dotado de sensibilidade e empatia, como é declarado de forma explícita pela personagem de Natalie Wood em determinada cena (aliás, nos lembra Daniela, é o compartamento carinhoso que Judy desejava receber do pai, visto que a atração que o mesmo nutre pela filha é a fonte visível do conflito que existe entre eles). Como Jadson comenta de forma muito oportuna, o filme possui um certo caráter heroico, que conquista a adesão profunda e irrestrita a seus protagonistas marginalizados. No entanto, apesar de Jim encarnar um idealismo juvenil que se opõe a covardia institucional e social, ele acaba por se aliar de forma indireta aos policias no momento em que tira as balas da arma do seu amigo, na tentativa infrutífera de impedir sua morte. Por louváveis que sejam as intenções pacifistas (e o pacifismo é sempre um ideal admirável e distante no mundo de violentos de Ray), Jim comete essa “traição”. E nessa traição ele se identifica com a figura de autoridade, resultando ironicamente num trauma de regressão ao estado de fragilidade adolescente. Aliás, é como resultado de outra morte que Jim adquire sua maturidade, a de Buzz. Apesar de ser, novamente, uma participação indireta, Jim toma parte num ritual de iniciação que admite a idéia de um sacrifício (o sacrifício do bode expiatório que é a solução das crises em sociedades conservadoras). A partir dessa morte (e é sintomático que apenas jovens morram durante o filme), é assumida a carga da responsabilidade (negada pelos pais infantilizados, numa cena de notável violência dramática) mas também é fortalecido o laço afetivo entre os três jovens (Manoela chama atenção mais uma vez para a forma como os ritimos e ambientes mudam completamente de um para o outro na mise-en-scene de Nicholas Ray, num dos filmes em que ele teve mais liberdade).

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