domingo, 14 de junho de 2015

RELATÓRIO 57

RELATÓRIO 57

RELATORIA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DE 06 DE JUNHO DE 2015: No afã por verificarmos “como um cineasta vigoroso consegue incisar, com uma ironia feroz, algumas chagas da nossa civilização” (palavras do pesquisador Claude Beylie), vimos, nesta última reunião, aquele que talvez seja o maior petardo do genial Samuel Fuller (1912-1997): PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963), obra fortíssima, que impacta terminantemente quem fica sob o seu jugo espectatorial.
Não obstante o baixo quórum nesta tarde chuvosa, os cecinéfilos presentes deslumbraram-se com uma denúncia intensificada contra algumas das mazelas mais insistentes da sociedade norte-americana: a intolerância (personificada aqui pelo anticomunismo); o segregacionismo; e a corrida armamentista, bem como os desvios éticos da ciência atômica. Diante de seu fervor enredístico, o diretor não hesita em parecer inverossímil nalgumas seqüências, quando o que lhe interessa é o extrato bruto de um puro cinema. Segundo o pesquisador supracitado, este filme é o corolário de “seu temperamento caloroso, explosivo, de seu estilo todo feito de fulgurações barrocas e de síncopes visuais, e de seu humor também, sarcástico até o delírio”.
Não obstante, ao final da revisão, Wesley Pereira de Castro ter desapreciado a interpretação exagerada do protagonista Peter Breck, foi consenso entre os demais partícipes da reunião que todos os arroubos actanciais do mesmo foram propositais, no intuito de atingir os efeitos propostos pelo cineasta, que “sempre faz cinema com lança-chamas: cada seqüência é como que uma praça-forte a ser atacada, um terreno a ser neutralizado”. Neste sentido, o uso das cores em algumas lembranças traumáticas (e/ou quiçá redentoras e atreladas a lampejos de sanidade) abalou profundamente os sentidos dos presentes, sobretudo de Victor Cardozo, que via o filme pela primeira vez.
Enquanto comparava o filme com outras produções fullerianas, o mentor Caio Amado ressaltou a pujança da crítica ao jornalismo sensacionalista perpetrada pelo roteiro, crítica esta que Wesley rebate pelo senso de voluntarismo dos repórteres, o que fez com que Jadson Teles trouxesse à tona uma oposição entre a culpa endógena e a exógena, que diferenciam os estilos de Nicholas Ray e Samuel Fuller, para além de suas similaridades produtivas e subestimações em Hollywood. Traços autobiográficos do diretor, inseridos em cada uma de suas obras, também foram exortados, com destaque para excertos de outros filmes (inclusive um inacabado) e aptidões profissionais que lhe conferiram uma especialidade inata no alicerce arquetípico da violência estadunidense. Por isso, o caráter de ‘mcguffin’ da trama de assassinato investigada pelo protagonista soa tão circunstancial e, ao mesmo tempo, tão percuciente. Sem constar que a suma sensualidade do filme deve ter sido escandalosa à época, tendo influenciado, com certeza, alguns aspectos do cinema de David Lynch!
Para a semana que vem, seguiremos com outro grande clássico deste insigne transcendedor do cinema B, O BEIJO AMARGO (1964). Um debate mui intenso estará assegurado, com certeza! (WPC>)

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