sábado, 30 de maio de 2015

Sobre Nicholas Ray. Hipóteses.



Caio Amado
1.
Os filmes de Nicholas Ray são muito diferentes uns dos outros, em gêneros, assuntos, caracterizações, tratamento visual, desenvolvimento temporal e montagem. Alguns traços recorrentes podem ser percebidos logo de saída – por exemplo, personagens atormentados, deslocados, outsiders – e este é um aspecto muito significativo. Mas as disparidades também são bastante perceptíveis. A imagem em preto e branco sofre profundas modificações, às vezes dentro de um mesmo filme. Ora a escuridão domina e, se opondo a ela, a luz é reduzida a riscos nervosos, focos locais e espaços fechados – para, de repente, tudo ser dominado por um branco opressivo. Às vazes, o tratamento é mais equilibrado, clássico - linhas e contornos lisos e nítidos, sombras que, sobretudo, ressaltam o contorno. Quando surgem as cores, elas são fortes, sobrecarregadas, excessivas, em contrastes ou misturas extravagantes, quase alucinogênicas. Mas, em outros momentos, elas são mais sóbrias. Entre sombras ou entre cores, os contornos e as linhas se perdem -  ou, pelo contrário, numa paisagem desértica, contornos e linhas são tudo o que se pode ver – até que uma tempestade de areia os dissolva e reduza tudo ao cinzento. Na maioria das vezes, o tempo se acelera e os eventos se sucedem tão velozmente que não chegam a se completar. Mas, em outras vezes, a passagem do tempo é lerda – e tudo parece que tende à imobilidade. Personagens e situações podem até se repetir – mas tratados distintamente – uns são complexos – outros, simplificados, esquemáticos ou caricaturais. Realistas ou, contrariamente, míticos, arquetípicos ou oníricos. Vivendo situações  verossímeis -  ou inacreditáveis.
No entanto, parece que tudo gravita num mesmo sistema.  Como Fritz Lang e Alfred Hitchcock, Nicholas Ray é obcecado pela culpa, mas a seu próprio modo. Ela tem a ver menos com o destino (como em Lang) ou com o acaso (como em Hitchcock) –  e mais com processos que envolvem qualquer coletividade. Compreendam-se, nesta palavra, grandes ou pequenos agrupamentos – um vilarejo ou a sociedade norte-americana dos anos 1950 – uma família, uma tropa, uma trupe, uma quadrilha, ou a civilização ocidental. Nos extremos, a humanidade e duas pessoas – um casal, por exemplo – ou até mesmo uma pessoa só (tão dilacerada que ela é). A culpa é o fantasma que assombra tais agrupamentos, como se eles devessem a existência a um crime abominável – e o mínimo de apaziguamento, se não a própria sobrevivência, à reparação deste crime. O maior dos imperativos é eleger um culpado e puni-lo. O sacrifício é o dever sagrado primordial. Deste ponto de partida, as variações se irradiam para todos os lados. A eleição pode ser mais ou menos sumária, mais ou menos aleatória. É um linchamento, um ordálio – uma corrida de automóveis cuja meta é o abismo, uma guerra nos ares ou sobre a areia, uma luta sobre as pedras ou nos pântanos – ou um julgamento – por um tribunal instituído legalmente, por sua paródia galhofeira e macabra ou pela opinião. O sacrifício pode exigir sangue. Pode ser apenas moral – mas, de todo modo, sempre doloroso.
Nicholas Ray faz parte de uma geração de intérpretes, encenadores teatrais e cineastas que valorizam a introspecção. Ele dirige – os atores principais, os secundários, e até os figurantes – querendo obter deles o máximo de tensão psicológica. É, no entanto, a culpa onipresente, não é um sentimento íntimo, não vem dentro de dentro do personagem – ainda que penetre nele e o maltrate. Sua origem é externa, vem de outro lugar, das outras pessoas. Vem como ameaça, investigação, interrogatório, vigilância, veredito, interpelação – ou, já que de cinema se trata, como olhar. Para isso, o cinema possui uma técnica das mais elementares, o contracampo. Um fala -  corte -  outro responde. Um atira – corte - outro cai. Alguém olha – corte – o objeto olhado. Não é rara a introdução de um terceiro: espectadores, testemunhas. Ray os utiliza sempre que pode. E expande a função que eles desempenham. Todos os personagens se tornaram espectadores e testemunhas uns dos outros. Tudo o que se passa se torna encenação – e toda encenação tem que supor um olho que a vê. Daí o olhar pode até assumir um outro sentido, que, ao mesmo tempo, deriva do primeiro e se opõe a ele. Pode se tornar respeito, temor, admiração, reconhecimento. O ordálio tem um vencedor e pode-se admirar um inimigo, talvez até percebê-lo pela primeira vez no ato mesmo de matá-lo. O olhar do outro é, ao mesmo tempo, algo de que se foge e algo que se busca. Durante o julgamento, um desenhista esboça o rosto do acusado e o advogado de defesa  observa, avalia – julga – cada um dos jurados. Os faróis dos automóveis se acendem em fileiras dos dois lados para a grande corrida para a morte, e isto é o cinema.
Mas se culpa, valor e até o próprio ser de cada um chegam de fora, o valor da introspecção se mantém, porque a interioridade não é vazia. Pelo contrário, ali dentro se contém uma carga violenta de energia, que é preciso conter - e nem sempre isso é possível. Ainda que possa fazer muito estrago,  ela não deve, no entanto, ser confundida com a culpa – confusão que fazem, por erro ou má fé, os poderes que investigam e acusam – a polícia, a procuradoria, estas instâncias narrativas que operam por lógica associativa e verossimilhança. A violência é ato cujo sentido o próprio agente desconhece. É algo sem nome. A culpa, ou a culpabilização, ao se direcionar a alguém, interpelá-lo, apontar-lhe o dedo, neste mesmo movimento  é o que nomeia e atribui sentido.  O garoto idiota estupra e mata, mas é a coletividade que o julga e o condena. São complementares, apoiam-se mutuamente - a punição mesma não pode existir sem violência. Mas não são a mesma coisa, porque pertencem a sistemas distintos, heterogêneos, até incompatíveis - como uma foto e a legenda, o réu e o veredicto, a imagem e o som. No interior deste intervalo, e independentemente de sua dimensão, que  pode ser mínima ou se alargar desmesuradamente,cabe muita coisa - e a obra de Nicholas Ray extrai daí muito de sua lógica.  
Costuma-se, ou costumava-se, classificar o filme hollywoodiano clássico como linear. Tal classificação talvez não seja tão errada, desde que se determine de que linha se trata. Penso que se pode desenhá-la assim: de início, ela é quase uma reta ou uma curva suave – isto é o cotidiano, que talvez seja feliz, mas que não serve como narrativa (parafraseando Tolstói, gênio da narrativa: todas as existências felizes se parecem; logo, não têm interesse). De repente, como um raio que cai do céu, uma grande pertubação que trastorna tudo. Começa a narrativa: a linha sobe e desce em rompantes nervosos, torna-se grave e estridente, e isto vai se intensificando até chegar ao clímax dramático após o que tudo volta a ser como antes. O antes e o depois não são iguais, pode haver e quase sempre há mudança e progresso de um ponto a outro – pode haver até regressão, a decadência é um tema legítimo destes filmes. Mas a qualidade da linha é a mesma, quase uma reta ou descrevendo uma curva suave. Há ordem no início, ordem no final – ainda que as ordens possam ser outras e, no meio do caminho, se acumulem as mortes e as dores. Tal paridade entre começo e fim corresponde a uma certa noção de justiça, fundada na equivalência entre dois pratos numa balança, sendo um deles o passado e o outro, o futuro. Acrescente-se a este esquema a função decisiva da trajetória individual para que aquela justiça se cumpra. O duelo é a figura prototípica, sob a forma de ordálio, da correspondência entre a ação humana e uma justiça que se inscreve na natureza. Os filmes de Nicholas Ray não se afastam muito do padrão hollywoodiano, e nem poderiam. Sua carreira como cineasta, acidentada e difícil, teria se tornado impossível se não fosse assim. Mas se diferenciam o suficiente para muda-lo de um modo radical, ainda que pouco perceptível. Não há justiça natural nestes filmes, e todo ato de justiça, neles, é inevitavelmente arbitrário e absurdo. Vem daí o desequilíbrio, a desproporção entre as partes, as mudanças imotivadas, os finais sem explicação, mesmo quando felizes. Alguma coisa sempre fica sobrando, alguma ferida não se cicatriza, o todo é insatisfatório e não se completa. Em conclusão, nenhum sacrifício repara a culpa – antes, a reatualiza – e a cadeia infernal jamais se quebra.
Nestes filmes, a culpa e o pecado estão em toda parte – conforme se dá no universo calvinista, mas – contrariamente à crença calvinista – neles não há culpa inata ou pecado original. Todos, até os os mais violentos, são fundamentalmente inocentes. Mesmo os linchadores mais ferozes não estão plenamente convictos do que fazem – podem, de repente, mudar de intenção, a ânsia pelo sangue pode se arrefecer, o grupo pode se desintegrar – para que se mantenha, é preciso alimentar-lhe incessantemente o ódio – assim como se deixa sem alimento um cão de caça. Não que a violência seja inofensiva e toda punição um engano - ou se estaria recorrendo num moralismo às avessas  alheio aos filmes de Ray, onde se encontram assassinos psicopatas, que matam por prazer. Estes são caricaturas, extraídas de convenções hollywoodianas, de baladas ou livrinhos populares que narram lendas, de histórias em quadrinhos – fontes nada estranhas ao universo pop, do qual Ray é um ilustre participante. Não são desprovidas de sentimentos estas figuras – são até muito sentimentais, a ponto de se apaixonar por uma foto. Mas não possuem aquele sinal de uma maldição de origem que torna tão impressionantes os assassinos e pervertidos dos filmes de Samuel Fuller. Em Ray, pelo contrário, pode haver maldade, mas ela, por pior que seja, é um fenômeno de superfície, não advém de nenhuma interioridade profunda, da qual tais personagens são desprovidos. Há os que, mais de acordo com um certo realismo, matam para se vingar de muitas e repetidas ofensas que outros, apoiados numa lei e uma ordem opressivas, lhes infligiram. Vingam-se de acordo com a forma do sacrifício. Invertem a relação entre o indivíduo e o mundo opressivo que o engloba, se excluem dele e o acusam – e como não se pode executar o mundo, o reduzem e o personalizam em alguém, um qualquer, de preferência portando o distintivo da opressão mas, momentaneamente, indefeso e, neste, realizam o ato sacrificial – ocasião para que mesmo ato se realize novamente, como a contravingança da lei e da ordem que retorna e recai nele próprio. Toda cadeia infernal pode ser revertida e permanece a mesma. Mesmo uma rebelião mais radical, uma recusa definitiva da civilização ainda assim é impotente para escapar deste círculo.  Aquela inocência fundamental, lamentavelmente, tem pouca chance de se manifestar. Ela poderia existir por exemplo, no amor – que também está ligada ao olhar, no polo do reconhecimento, mas cuja lógica se opõe àquela da culpa e do sacrifício. Entretanto o amor é frágil, difícil, ameaçado por dentro e por fora – pela lei, pelos gangsters, pela delação – pela desconfiança e pelo desprezo mútuos – por imaturidade, ignorância de si, impossibilidade de exprimir, impotência, inibição, deficiência – por cegueira emocional ou física. Mesmo que houvesse uma justiça inscrita na natureza – e já se mostrou que não há – nenhuma ação humana poderia entrar em acordo com ela.
30.5.2015


 2.

É inevitável a sujeição de toda coletividade à lógica da culpabilização? Não seriam possíveis outros modos de convivência? Talvez entre os ciganos e os esquimós. No gelo azulado e branco, onde a vida é escassa e a luta por ela é incessante, opera uma lógica de reciprocidade, os rituais são reduzidos aos ciclos da natureza e o sacrifício, se não desaparece, deixa de ser uma exigência cruel do grupo para tornar-se apenas um final de vida pelo qual todos terão que passar. Entre cores muito quentes, onde a vida é excessiva, agitada e nômade, as relações naturais e seus dramas – o acasalamento, a rivalidade entre irmãos – ainda que não dispensem o sangue, se ritualizam numa grande e lúdica festa comunitária. Ritualização da natureza ou naturalização do ritual, aí trabalho ou poupança compulsórios já não podem impor a sua tirania e é possível uma existência mais feliz e mais livre.
O passo seguinte deve ser dado com muito cuidado. A expressão “mundo livre” era, então, uma das bandeiras antagônicas de uma guerra planetária, chamada de fria mas que ferveu muita carne humana e teve como fundamento a ameaça – que não desapareceu – de uma fervura máxima e definitiva – a aniquilação absoluta. E esta era a bandeira do Estado em que Ray, nos anos 1950, realizou os seus filmes. Afirmar que estes punham em xeque o adjetivo “livre” pelo qual se audenominavam este Estado e o mundo que ele se propunha a liderar – disparando todas as bombas necessárias para tal –  seria atribuir ao cineasta uma linha programática bem delineada, algo que não podia condizer com o seu temperamento anárquico e desassossegado. Rebelião, rejeição à ordem estabelecida, denúncia da injustiça constitutiva de instituições respeitáveis eram atitudes deste temperamento enraizado, entretanto, numa tradição muito norte-americana – que não se limita ao conformismo bocó e paranoico de seus porta-vozes credenciados. Ray é um contemporâneo dos beats e um antecipador da contracultura – por exemplo, na abertura para a alteridade de outros modos de vida, seja entre os povos tribais, seja no Oriente. Mas, em uma cosmovisão onde todas as coisas se revertem, tal abertura também pode se reverter. Na China, cores e hierarquias estratificadas, arquitetura e cerimonial simétricos, gestos hipercodificados, tudo isso é belo mas se opõe a toda manifestação de espontaneidade e vida – que se encontram, agora, no mundo branco e ocidental – ao qual, com magnanimidade, é permitido que se inclua o Japão – ameaçado e espremido entre muralhas e reduzido à condição de vítima coletiva – numa guerra de extermínio comandada por máscaras grotescas e realizado por um exército de formigas em fúria cega e assassina. Se tudo isso pode ser muito atual nos dias de hoje, o enfoque reacionário é decepcionante. Mas a emocionante aventura colonialista não foi a última palavra de Nicholas Ray. Seu último filme holywoodiano não foi seu último filme.


6.6.2015
 (continua)               

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