domingo, 23 de novembro de 2014

DOSSIÊ LARS VON TRIER - EPIDEMIA



EPIDEMIA (Epidemic), 1987.

Nesse segundo filme, já predominam a metalinguagem e a auto referência tipicamente trierianas. O que parece estar em cheque é a relação de organicidade que o criador tem para com sua obra. Lars Von Trier protagoniza o filme, interpretando a si mesmo, ao lado de seu roteirista (e colaborador frequente) Niels Vørsel. Às voltas com um roteiro nada satisfatório em fase de finalização (ironicamente intitulado de “O Policial e a Puta”, numa clara referência ao filme anterior, na qual diretor e roterista aproveitam para fazer piada da própria cria), a dupla acaba perdendo a única cópia numa pane técnica. Pressionados por um produtor pragmático (Claes Kastholm Hansen, também interpretando a si mesmo), eles decidem escrever um roteiro completo totalmente novo em cinco dias. Escolhem escrever sobre uma terrível epidemia, pelo ponto de vista de um médico idealista (interpretado novamente pelo próprio diretor) determinado a tratar os pacientes diretamente - o que desrespeita a quarentena imposta pelo comitê de medicina que agora controla o continente. Coincidindo com o início do processo de escrita, surge uma epidemia real na Europa, de uma doença mortal muito semelhante à descrita pelo roteiro. Está estabelecido o terreno para os jogos referenciais que tanto parecem agradar Trier: as duas narrativas paralelas (o diretor e o roteirista viajando pela Europa infectada e o próprio roteiro que vai ganhando forma) se espelham e se coincidem de múltiplas maneiras. Se por vezes esse excesso referencial acaba fazendo com que o filme corra em volta do próprio rabo, cria também momentos interessantíssimos de metalinguagem, em que as falas dos personagens e a própria mise-en-scène propõem um diálogo externo e distanciado com a ação que ocorre na trama em si e ao mesmo tempo bastante direto no que diz respeito à perspectiva do expectador, como se dissecando cada cena no momento em que ela passa diante de nossos olhos. No entanto, a confusão e o hermetismo da narrativa são agravados pelo ritmo agonizantemente lento que engolfa o filme (justiça seja feita, isso é feito de forma calculada). Todos esses elementos (ou seria melhor dizer, “sintomas”?) até então apresentados exaustivamente culminam num cena final violenta, visceral e catártica quando os personagens-criadores são finalmente confrontados com a epidemia sobre a qual passaram o filme inteiro se debruçando. Tanto nos paralelos religiosos com a ideia de graça e a crise diante da crença quanto no comentário cultural sobre o cinema dinamarquês (antecipando a reação opositiva em relação às fórmulas desse cinema, que foi o Manifesto Dogma 95), EPIDEMIA é muito coerente dentro das teses autorais desenvolvidas pelo diretor ao longo de sua filmografia. A experiência de assisti-lo, no entanto, é um desafio de paciência extenuante.

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