"O plano, isto é, a consciência, traça um movimento que
faz com que as coisas entre as quais se estabelece não parem de se reunir em um
todo, e o todo de se dividir entre as coisas (o Dividual)"...
A partir deste pressuposto conceitual contido no segundo
segmento do capítulo II de "Cinema 1: A Imagem-Movimento", o filósofo
Gilles Deleuze explica em que aspectos é estilisticamente justificável "um
mundo passarizado", para mencionar diretamente o clássico de Alfred
Hitchcock OS PÁSSAROS (1963), utilizado como exemplo recorrente.
No capítulo em
pauta, inclusive, o autor referia-se à estilística como sendo "um
movimento que se instaura entre as partes de um conjunto num quadro, ou de um
conjunto a outro num reenquadramento", o que fez com que a metáfora
biológica do código genético fosse transferida para o campo cinematográfico,
num preâmbulo teórico que se coaduna com a "política dos autores".
Akira Kurosawa, F. W. Murnau e Orson Welles foram outros diretores mencionados
no capítulo, sendo particularmente defensável, de minha parte, os ângulos ostensivamente
oblíquos nos filmes de Carol Reed, ao qual o autor refere-se de forma
precipitada.
Diferenciando-se estritamente as perspectivas do quadro
fotográfico e do plano cinematográfico como sendo uma moldagem e uma modulação,
respectivamente, Gilles Deleuze acrescenta que este último "não se detém
quando o equilíbrio é atingido, não pára de modificar o molde, de constituir um
molde variável, contínuo, temporal". Ou seja, o plano é a
imagem-movimento, pois "reporta o movimento a um todo que muda e, ao mesmo
tempo, é o corte móvel de uma duração".
A fim de demonstrar isso com efetividade, no final do
capítulo 2, o autor afirma que a imagem-movimento pode ser constituída (e, por
extensão, liberada, enquanto movimento, dos móveis e objetos que focaliza ou
acompanha) através da mobilidade de câmera ou da montagem ('raccord' de
planos). Sendo assim, o capítulo 3 do livro é justamente sobre montagem,
subdividida em quatro grandes tendências:
- a orgânica, da escola norte-americana;
- a dialética, da escola soviética;
- a quantitativa, da escola francesa;
- e a intensiva, da escola expressionista alemã.

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